quarta-feira, 26 de maio de 2021

Se não fosse

Seria muito mais fácil se não fosse o amor, mas se também não fosse o amor seria muito mais difícil.

2+2=4

Sim/não

On/off

É sempre mais fácil o racional, escolher a escolha já escolhida, legitimada, fingir ter opção.

Por outro lado, a emoção não pede sim, não diz que não.

Não é provável, nem previsível, nunca é errado ou certo, por não binária, é só possível.

Assim é o amor, não é perfeito, nem o contrário, muito pelo contrário e ainda bem.

A escolha é sempre difícil, mas não parece e se sabe muito bem a escolha quando se ama.

Amor não se escolhe, mas mesmo assim se ama o amor que não pode escolher.

E se pudesse teria outra escolha?

Não sei, mas provavelmente se escolheria amar o amor que não se escolheu, mas se ama.

Na realidade, seria impossível não fosse o amor... não seria possível sem amor.

Sempre me pergunto, o que eu faria para evitar?

Sinceramente, é esse complexo de super, de achar que só eu conseguiria, que tenho a fórmula mágica.

Mas, sei que não tenho, sei que não devo transferir responsabilidade e 


terça-feira, 25 de maio de 2021

Anacoluto

Solidão sozinho não é vida, também não é morrer, é desviver.

Ser sozinho não vive, não conta e escreve histórias, só, passa, o tempo.

Na solidão, a saudade, a lembrança, a memória, doente, alimento.

E alimento que sem se alimentar definha, degenera, esgota, deslembra, até esquecer.

Não, não faz rima, não dá pra rimar essa tristeza com essa solidão.

Não, não dá pra viver só e de sonhos, sem cremes, sem crimes, sem movimentos.

Não, não dá pra viver só e da ilusão.

Do querer.

De sorrisos em vão e alegres que se vão e não mais voltarão.

Não dá para esperar a esperança perdida vagar pelas ruas, olhar a lua, sem se encontrar.

Não pode reencontrar se encontro não há.

Se não encontra, não pode se e nem achar.

Só não encontra ninguém, muito menos o querer, o bem querer, o bem, o bem amar.

Só não se morre, mas também não se desmorre, não se vive, se desvive todo dia também.

Anacoluto. 

  




   

  

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Caixa de guardar

Memoria é caixa de guardar.

Guarda da trajetória, do percurso, as historias escritas, as descobertas realizadas, as experiências e aprendizados.

Mais que tudo, guarda sentimentos, importâncias, valências, valores, emoções vividas, experimentadas.    

A memoria é caixa registradora, registra sensações boas e ruins, mas principalmente as ótimas.

Essas ótimas, que realizam, dão prazer, provocam orgasmos, adentram sem esforço o repositório e nunca, nunca mais são esquecidas, mas lembradas, vividas, sentidas, eternizadas.

De todas a que fica, finca, é cravada e se inscreve no ser e se preserva viva, faz viver se chama amor.

Mas o que é viver?

Precisamos perguntar mais, o que é vida?

De certo, não tem uma resposta, nem só uma, mas algumas, a pensar nessa fabrica de motivos.

Viver é ter motivos...

sim, eu te amo, acho que todo mundo precisa de amor, de mais amor...de sorrir, sentir prazer, mesmo que mínimo, mesmo que rápido, efêmero.

E a gente só quer prazer, até quando retribui sente prazer.

Enfim, prazer faz aparecer sorrisos, faz bem, em qualquer hora e qualquer lugar.

Prazer é encontrar e sentir o sentido, uma realização...foda que o prazer dura tão pouco, e exige muito movimento, muito esforço.

Viver talvez seja isso, uma busca incessante, movimentos, para sentir prazer.

E, a gente nunca para de se mover, mesmo quando morre alimenta movimento, ações e reações, se transforma em outra energia, se transfere....

A gente vira, húmus, alimenta eucariontes, procariontes, protozoários, uni, pluricelulares...vira outra coisa, se transforma em gás, faz parte do ar e continua em movimento.

É ótimo ter a certeza de que alguém nos ama, né?

Porra, e eu amo um monte de gente, por motivos iguais e diferentes, gente que se movimenta e que não vejo mais mas se movem, são movimento e me movem.

É ótimo amar, sentir esse sentimento tão confuso, inexplicável, mas amor não se explica, se ama, se vive, se preserva, mesmo sem querer, na caixa de guardar o não esquecer e lembrar amar.    



  

quarta-feira, 5 de maio de 2021

te amo ou amo você?

Te amo e tem um milhão de motivos para justificar, 

mas como não sei se amor é preciso precisar, 

te amo porque te amo e te amo por te amar.

A única dúvida está em se eu te amo ou amo você?

viver morrendo

Eu só queria pedir desculpas, mas não morri hoje, mais acho que nasci para não ser.

Morri desde o dia que nasci.

Por um tempo eu tive sonhos, fiz o possível, dentro das minhas impossibilidades, para ser vivo e parecer viver.
Eu quis ser, quis ser um bom filho, um bom irmão, um bom amigo, um bom companheiro, tio, sobrinho, profissional... ser um bom ser.
Quis ser o par de alguém, mas coitadas delas... peço desculpas, eu quis ser tanta coisa e só consegui nada ser, mas isso é tudo o que esse ser pode ser.
Quando eu partir, virar outra coisa, podem até achar fazer alguma falta, afinal a morte morre mais quando de perto se vê morrer.
Mas não é verdade, na realidade nada vai mudar, também nunca foi essa a vontade.
A única coisa que quis foi ser, ser alguma coisa, mas não dá pra ser, não consigo ser o que não posso ser.
Eu tô chorando, tô sofrendo, mas tô compreendendo...
Desculpa, e juro que tentei.
Tentei ser o melhor que pude, por amar, por respeitar, por respirar e não querer viver morrendo, morrendo de viver. 
Mais tentei não causar tristeza do que decepcionar, mas o meu melhor, o meu tudo é insuficiente.
Não sei o que vai acontecer, mas juro, juro que amei.

Você tem sede quê? Você tem fome de quê?

Na última cena do filme “O grande ditador” (1940), Charles Chaplin com as frases “Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja”, e “Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades”, rubrica a valorização das escolhas individuais.

As interrogações nesse título, extraída da música “Comida” (1987), reticencia um universo de respostas pessoais enquanto provoca reflexões a partir das diversas sedes e fomes. Grosso modo, as duas manifestações artísticas demonstram apreensão com o cerceamento de liberdades, padronização de ideias e uniformização das compreensões.

Provavelmente, os artistas se inspiraram num observar da natureza e das pessoas conduzidas, tocadas, tangidas por outras pessoas a construir percepções da condição humana a partir do viés capitalista. E, quase sempre, na produção de políticas públicas esqueceram de perguntar qual a sede e qual a fome?

De certo, é impossível produzir políticas a atender todas as demandas individuais. Porém, antes de deliberar seria prudente escutar para reconhecer as principais, as necessidades, as insuficiências de cada indivíduo e de cada grupo.

Ao ignorar na discussão princípios fundamentais do simples exercício de ouvir, o Estado orquestrado em desarmonia, nutre-se de uma lógica binária, arquitetado como um coliseu pitagórico, para normatizar e reduzir significados de qualidade de vida e de padrões comportamentais, fundamentalmente complexos.

No artigo “Consumo logo existo”, Frei Betto (2006), alerta: “o capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social”.

Basicamente, os indivíduos, devido ao poder de “enformação” dos capitais afanados pelos comuns/semelhantes “elitizados”, passaram a compreender a elevação dos índices de consumo, mesmo não saudáveis, como sinal de distinção. Mas, não se atenta em primeiro plano precisar se converter numa máquina, num produto, numa coisa, logo mercadoria a ser comprada por um outro tipo de consumidor. Não passa de um desumanizado que evidencia a reificação da condição humana e assim se vende e se desumaniza.

Na contramão desse processo indutivo, vertical e impositor, devemos mais ouvir para mais saber: a sua sede é de quê e qual a sua fome?

quinta-feira, 29 de abril de 2021

acordar é preciso

Há dias que eu não acordo.

Pra ser honesto, no tempo da honestidade funesta, sádica, desonesta, há anos que eu não.

Acordo e não desperto, levanto e não acordo. 

Ver, vendo, mais passado, passando, engolindo o futuro, que morre.

A morte do passado é doença presente a matar o que vinha vindo.

A gente, daqui de dentro, vendo a vida morrer lá fora e não fazendo nada.

Inerte, é sobre vida, ver ganancia, honestidade desonesta, psicótica, psicopatética, ignorante matar até a morte.

Não chora mais como chorava, de tanto chorar a lágrima acaba cansada,

de tanto morrer alguém esse alguém é só mais alguém antes de mim depois de esse fim.

Acabou a carne, acabou o carnaval.

Vai ser muito difícil reaprender a viver com gente perto da gente depois de todo dia morrer sozinho.

Acordar é preciso, viver não, mas é preciso...

    

  


terça-feira, 27 de abril de 2021

A palavra e o som.

 As palavras e as coisas, as coisas e as palavras...

O que é a palavra, obedece códigos e se limita a quem compreende o que quer dizer, mesmo assim a palavra bem-dita alcança...

Enquanto o som, ser universal, as vezes indecodificável, ou quase, transporta, o som, mesmo maldito, consegue dizer, pode afrontar e sempre atinge....

Quantas palavras são necessárias para ser compreendida e dar um alerta, um pedido de socorro?

Por isso, a palavra espera...

Mas o som, até de um grito, é desesperado, é compreensível, é imediato...  

A palavra é contida, estática, o som movimenta, o som dança...

Na palavra o sentimento sai de quem escreve e nem sempre chega, como tal, a quem lê...no meio do caminho ela pode se transformar, o que foi dito pode ser ouvido diferente quando se lê sem o outro escutar.

Por sua vez, ao ser, transporte, cabe, sentimentos, carregar, transportar, encontrar.

Contudo podem os sentimentos serem diferentes, consonantes ou discordantes....

O som sempre é, sentido, faz sentido e se sentir...  

É possível, mas dificilmente o som, fundamentalmente, deixa de chegar com outra conotação...

A palavra é Monalisa, dela o som é o sorriso...

A palavra precisa de um se fazer sentir, mas o som apenas se sente...

O toque, o tato, tanto trata a palavra quanto o som, mas o som toca...

A palavra emociona, o som é moção...

O som tem nome próprio, objetivo, incisivo... a palavra, muitas vezes, até sobrenome tem...

A palavra é formal, as vezes distante, consciente

Informal, natural, mineral, animal o som é íntimo, é próximo, é presente...

Vem de dentro, sai pra fora...

A palavra é procurada, é convidada, é recebida por quem quer receber

O som não bate portas, invade, arromba, pula janela, não é preciso nem achar, 

de onde vem o som?

A palavra precisa tempero, o som é naturalmente doce, salgado, acido, amargo, é tempo errado, certo também.

Quando a palavra encontra o som, o som empresta sonoridade, a palavra escrita ganha cor e ao fazer amor com o tom que faltava é palavra falada, é palavra dita, é palavra encantada... que se espalha para além da compreensão, não pelo que diz, menos pelo que fala, mais por fazer ouvir o som... aquilo que se pode ouvir... a palavra é sentida, a palavra precisa, o som basta!

A palavra viaja, o som vira, revira, gira mundo...

Palavra canta, o som dança...

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Armas

A metáfora das armas

As armas de Jorge é metáfora de ser e encontrar força no amor,

A espada é planta, planta que planta e implanta raízes no chão por amar elementos, terra, água, sol, ar... 

A lança, o objeto a encurtar distâncias, provocar aproximação a alcançar o coração,

O meu, o teu, o seu, o nosso coração despido, vestido e revestido com roupas, energias a colorir de vida toda cor, cor ação...são

Por falar em cor, o cavalo branco é também preto, azul, rosa, amarelo, verde e vermelho, da cor da capa, da capa a cobrir qualquer cor...  

E o dragão, o dragão não passa da dor, da dor existente, persistente, dentro da gente, dor que a gente sente e combatida precisa ser, por lutas, principalmente, contra aquilo que não consegue ser bom na gente, se não ela invade, nos ataca, nos engole...

Jorge, suas armas, são, metáforas, de outra dimensão, armas sobrenaturais, brotadas na alucinação que se chama amizade e respeito a defender de toda ameaça a vida.

Mas, o que nos mata é não nos armarmos, diuturnamente, seguindo as batalhas da vida que só são e serão vencidas quando nos amarmos no encontro de todo amor.