domingo, 28 de março de 2021

O que é viver?

O que é viver?

Como de hábito, minha resposta é: não sei.

Só sei que viver parece ser morrer todo dia.

E, ainda assim, mesmo sabendo um dia ela chegar, todo dia da morte fugir.

As vezes eu queria deixar de morrer tantas vezes,

mas isso significa morrer apenas uma vez.

Se só uma vida tivesse não poderia, todo dia, tentar e conseguir, até agora, dela escapar.

Não sei se viver assim, correndo da morte, é bom ou ruim.

Mas, a outra opção seria parado, inerte, sem movimento, não prosseguir.

E nessa correria, todo dia, em meio a quedas, tombos, machucados, feridas, acompanhadas de muitas lagrimas, as vezes aparecem uns sorrisos, no meio de tantos nãos surgem improváveis sins.

Na verdade não são suficientes, mas necessários.

Sigo sem saber o que é viver, 

Só sei que vivo todo dia do que ainda não sei até o dia de saber o que é morrer. 

Será que viver é morrer todo dia e mesmo assim todo dia fugir da morte?


Talvez sim, a vida deve ser isso, morrer todo dia e mesmo assim fugir da morte para morrer só uma vez.


Mas no fundo, o que faz viver é a crença de a vida poder recompensar e até recomeçar.




   

segunda-feira, 22 de março de 2021

Não desisti

Se, por acaso, alguém disser que desisti, onde quer que eu esteja, digo não.

Nunca desisti, mas até eu sei reconhecer o não é possível, quando não dá mais para tentar, a força se esvai e é impossível.

Ninguém sabe realmente, e isso não é possível, quanto lutei diariamente.

Lutei contra minhas limitações, demências, afastamento da mente, contra carências, contra paixões, platônicas, contra certezas, contra a realidade e, ultimamente, luto contra o luto.

Sabe, eu morri muito, morri dias, por anos, morri muitas vezes e ainda estou morrendo.

Mas, chega um momento em que até um ser desprovido de poderes especiais, de sorte, de espertezas, sabe não adiantar tentar não morrer, e a gente morre, talvez, até pela ultima vez.

Enfim, não desisti, apenas reconheci que lutar só, que só lutar, não adianta.

Para ser sincero, a vida ainda desistiu de mim, não sei o que isso é, se é bom, se é ruim ou outra coisa. 

Para desistir ela precisaria ter dado uma chance e isso ela não faz, pelo menos não percebi.

Tudo, desse nada que eu não tenho, foi na luta, consumiu forças, mas achava ser incansável, com vontade de lutar contra frustrações, contra ilusões, contra desejos e contra-desejos, mas agora se mostra contraproducente e acho que a gente cansa.

Acho não ter mais forças para lutar para conter lágrimas e sorrir sorrisos, quase todos sem graça, contra a tristeza de um existir demonstrar a alegria, desmedida, imprópria, exagerada.

Acho não ter mais força para sentir e, mesmo assim, tentar afastar a dor que dói e que eu sinto.

Eu sempre achei que amanhã seria melhor.

Que amanhã, numa esquina dessa vida, um sorriso eu poderia receber e dar para mim.

Eu queria me ver sorrindo com alegria, pelo menos uma vez, e não só para e por vocês.

Sempre achei que no amanhã, numa curva dessa vida, o milagre aconteceria e eu deixaria de ser pobre.

Não tem nada a ver com dinheiro.       

Tá, eu enganei muita gente, não todas.

Mas, em alguns instantes, me mostrei.

Lembram quando me conheceram?

Nos primeiros dias eu era eu, só eu, eu só, calado, tímido, trancando em mim.

Mas esse eu ninguém reparava, não conquistaria alguém.

Só quando eu me vestia do que eu não sou recebia atenção.

Por isso eu sorria, por isso despejava bobagens, em grandes quantidades, por isso era bobo e até ridículo.

Sabia, só sendo o que eu não era, conseguindo ser o que não sou, poderia ser um pouquinho do que queria ser.

Mas agora já não posso mais.

Não consigo.

Algumas vezes o disfarce caia, voltava a ser chato, vazio, sozinho... nesse momento era o que era e não queria, por isso me escondia.

Sempre fiz coisas com segundas intenções.

Não, não sou generoso, não sou altruísta, não sou cordial.

Eu sempre fiz coisas por alguma retribuição.

Fosse um abraço, um beijo, uma amizade, um carinho, um sorriso, uma palavra, fosse um reconhecimento.

Eu falava muito, muito, sobre o que ouvia.

Quase não perceberam, mas eu sabia e gostava de ouvir.

Até porque, se não fossem pelos ouvidos não teria nada na boca, nem pão, nem beijo, nem dentes, nem palavras.

Agora, como não ouço, não vejo, não encontro, não sei do outro e outro não quer saber de mim, acho que fiquei mudo nesse mundo.

O tempo todo me alimentei do outro e agora sozinho, só comigo, não deixei de sentir fome, mas, talvez, não tenha mais o que comer, nunca foi suficiente, mas necessário.

Não, eu não desisti.

Apenas quero fugir, sair daqui, desse lugar que bem conheço e, tenho quase certeza, só vai me dar mais um pouco de mim. Ou seja, nada.

Preciso tentar uma nova chance, se tiver, em outro lugar, se tiver, e ser algo diferente do que sou.

Eu nunca desisti de mim, desistir de mim não é desistir de mim, mas desistir de você.

...de vocês.

domingo, 21 de março de 2021

Nada...

De Pessoa, pessoa até no nome, a obra que mais admiro é aquela em que ele assume a sua insignificância e confessa não ser nada.

Outros já o fizeram antes, mas condicionam o “não ser” a faltas em relação ao outro.

Na “sua” tabacaria, Pessoa não, assume de maneira contundente o não ser nada por simplesmente não ser, não poder ser e não querer. Embora sonhos tenha, reconhece a insignificância e a impossibilidade de conseguir todos, tantos, alguns sonhos, apenas sonhos. Parece falar de mim.

Às vezes, convencido, penso ser a mais completa farsa. Mas, como tudo que é solido se desmancha no ar, seja por Marx ou Berman, sinto cada partícula esvaziada sair de mim enquanto sonhos que sonho se transformam em sonhei.

A solidez da matéria só existe, com o tempo deixa de existir, na atmosfera do desejo de negar o que sou.

Reconheço, por um tempo fui hábil em enganar, principalmente, a mim mesmo, pensando enganar as pessoas, mas tudo que é solido desmancha naquilo que não parece ser e na realidade é. Naquilo que não se toca, não se vê, não se escuta, não se prova, só se sente e quando não se sente, aquilo que não é mas é solido, sufoca, asfixia.

Não sei escrever como poeta, na verdade, comprovando a mais completa nulidade, sei nem escrever.

Tá, é possível que alguns enganados enquanto não descobrirem a máscara, como pessoa, que caiu em mim sintam falta do produto desse artefato. Mas depois que a removerem, que ela finalmente cair fora de uma vez, não demora a reconhecer o nada e esquecer o que não pode ser lembrado.

Talvez, muito talvez, eu tenha vivido um sonho ou delirei, nos halos dos cigarros, desejando ser tudo aquilo que não sou. Mas, se por instantes, revelasse o que sou por certo descobririam que nada sou e eu não teria vivido.

Autodefesa, sabendo que não era e não poderia ser tentei ser o aquilo que não era, não fui, não serei, nem por um segundo, pela sobrevivência.

Não tenho dúvidas, já não consigo, embora ainda tente, usar mais máscaras.

Elas não mais cabem, o tempo passou tão rápido, ultimamente tão lentamente, e ao me olhar posso me ver, mas não me encontro. Sem me reconhecer como algo deixo de existir para ser tudo o que sou e esse tudo, vazio, sozinho, triste, parado, nulo, só eu, eu só... é somente tudo o que jamais quis ser, nada.

Sabia que se fosse o que sou, nada, seria assim, por isso vivi a vida escapando da realidade, me esquivando, correndo, driblando, sonhando e fugindo de mim.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Ah se sei lá

Ah... se...sei lá...

Se você decidisse escutar...se quisesse ouvir e de repente cantar...

Ah...se...sei lá...

Depois de o dia dormir, quando você acordar

Ah...se...sei lá...

se a vida voltasse a vida sorrir...

E... de alegria chorar...

Ah...se...sei lá...

Quando o pesadelo acabar... 

a gente encontrar...

Ah...se...sei lá...

O abraço abraçar...o cansaço passar...

Ah...se...sei lá...

Ah...se...sei lá...

O relógio do tempo contar pro amor se amar, 

Ah se esse dia chegar

Ah...se...sei lá...

esquecer, se lembrar...

Quando o eterno hoje se for... e a manhã no amanhã que virá... será Mah...se...sei lá...

Ah... se... sei lá...se o sol voltar a brilhar, a lua acordar e sutilmente encostar no mar... o beijo beijar...

Mah... se... sei lá...eu poderia... ah... acreditar...


domingo, 14 de março de 2021

Viver?

Viver é o Ser compreender Estar ou o Estar compreende o Ser?

Não sei...

Só sei ser preciso mais que apenas Ser, mais que Estar.

Para Ser é preciso Estar, mas para Estar é preciso Ser.

Tanto Estar quanto Ser precisam do outro Ser e Estar.

Nada pode Ser sem Estar com, por,  

Nada pode Estar sem Ser com, por,

Sem Ser e Estar ou Estar e Ser composição. 

Ser é ser algo para outro, o si mesmo compreender essa imprescindibilidade do Estar.

Estar é com outro, o si mesmo compreender essa imprescindibilidade de Ser. 

Não dá para só ser, não dá pra Ser só.

Não da pra só Estar, não dá para Estar só.  

Estar só nega o Ser.

Só o Ser nega Estar.

Sem o outro para Estar não existe o Ser.

Sem o outro para Ser inexiste o Estar. 

terça-feira, 9 de março de 2021

COM.VOCÊ

 Com você eu quero.

Com você eu quero tudo e tudo é qualquer coisa.
Com você eu quero canto, quero dança, quero um canto onde a gente possa querer.
Com você eu quero até o que não quero, o que não preciso, o que não posso.
Quero verso, quero prosa, quero verde, quero rosa, quero verde e espero amadurecer.
Quero fruto, semente, germinar, florescer.
Quero azedo, quero ácido, quero doce, salgado, amargo, quero seus sabores.
Com você eu quero chuva, quero sol, mar, quero dia, noite, madrugada e luar.
Quero terra, quero fogo, quero água, quero ar.
Com você eu quero, quero, quero mais, mas pode ser menos, tanto faz, com você.
Com você eu quero colo, quero beijo, beijar.
Com você colorido, sexo, quente, frio, gozar.
Com você importa, ou não importa, quero fim, meio, começar.
Quero sonho, quero ilusão, realidade, sonhar, imaginação.
Quero cheiro, quero cheio, vazio, recipiente e conteúdo.
Com você eu quero tudo.
Quero dor, dormente, incolor.
Com você azul, amarelo, vermelho, branco, preto, indolor.
Quero sim, barulho, sussurros, gritos, gemidos, silêncio, amor. 
Com você eu quero, quero qualquer coisa, me acabar.
Com você eu quero, só não quero o que você não quiser, se você não quiser, se você não deixar.
Fora isso, tudo e qualquer coisa, toda, pedaço, beijo, abraço, depois, agora, toda hora.
Eu quero com você, com você eu quero, sem você não quero nada, só quero querer te querer.
Com você quero até não querer, quero viver.
Quero perto, quero quente, quero não longe, quero ir, quero voltar, quero sóbrio, me embriagar, tudo em você.
Quero pele, quero corpo, quero muito, quero pouco, um pouco do quanto você quer.
Sei o que quero, o que eu quero não depende d'eu querer, depende de você mulher, se você quiser.
Quero deitado, quero sentado, quero em cima, quero embaixo, quero de quatro, de três, de oito, quero em pé.
Só sei que quero, o quanto quero e quero, e gosto e quero querer.
Com você quero até sem querer, só não quero só, sem você.
É, mas tem coisas na vida e, principalmente, pessoas que a gente só pode querer.
Por isso querer tão bem esse tão bem querer. 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Sonhar

Sonhar, na minha opinião, não é fugir da realidade, isso parece impossível. Mas tentar por cor nas ausências, nas carências, nas insatisfações, nas incompreensões da vida.

Pensando bem, o sonho é a distância mais distante de qualquer realidade, o ato de sonhar carrega ao ponto em que o “eu” reconhece o difícil, o impossível, o improvável, mas assim mesmo os desafia.

Eu sonhei muitos sonhos, incontáveis. Poucos deles se realizaram, muito poucos, quase nenhum, pelo menos ainda. Mas, esses poucos que vivi foram especiais, de tanto nem pareciam ser reais.

Eu sei que o sonho pode nunca se realizar, mas ele promete. Promete motivos, promete sorrisos e um segundo depois outro segundo, terceiro, quarto, para quem acostumou a esperar o não, sorrisos acompanhados de sim.

Nem sei se o sonho foi feito para se realizar, tudo o que sei é que o sonho é feito "de" "e" para sonhar e para se realizar é preciso sonhar.