De Pessoa, pessoa até no nome, a obra que mais admiro é aquela em que ele assume a sua insignificância e confessa não ser nada.
Outros já o fizeram antes, mas condicionam o “não ser” a faltas em
relação ao outro.
Na “sua” tabacaria, Pessoa não, assume de maneira contundente o não
ser nada por simplesmente não ser, não poder ser e não querer. Embora sonhos tenha, reconhece a insignificância e a impossibilidade de conseguir todos, tantos, alguns sonhos, apenas sonhos. Parece falar de mim.
Às vezes, convencido, penso ser a mais completa farsa. Mas, como tudo que é solido se desmancha no ar, seja por Marx ou Berman, sinto cada partícula esvaziada
sair de mim enquanto sonhos que sonho se transformam em sonhei.
A solidez da matéria só existe, com o tempo deixa de existir, na
atmosfera do desejo de negar o que sou.
Reconheço, por um tempo fui hábil em enganar, principalmente, a mim mesmo, pensando
enganar as pessoas, mas tudo que é solido desmancha naquilo que não parece ser e na realidade é. Naquilo que não se toca, não se vê, não se escuta, não se prova, só se sente
e quando não se sente, aquilo que não é mas é solido, sufoca, asfixia.
Não sei escrever como poeta, na verdade, comprovando a mais completa nulidade, sei nem escrever.
Tá, é possível que alguns enganados enquanto não descobrirem a máscara,
como pessoa, que caiu em mim sintam falta do produto desse artefato. Mas depois
que a removerem, que ela finalmente cair fora de uma vez, não demora a reconhecer o nada e
esquecer o que não pode ser lembrado.
Talvez, muito talvez, eu tenha vivido um sonho ou delirei, nos
halos dos cigarros, desejando ser tudo aquilo que não sou. Mas, se por instantes, revelasse o que sou por certo descobririam que nada sou e eu não teria vivido.
Autodefesa, sabendo que não era e não poderia ser tentei ser o aquilo
que não era, não fui, não serei, nem por um segundo, pela sobrevivência.
Não tenho dúvidas, já não consigo, embora ainda tente, usar mais máscaras.
Elas não mais cabem, o tempo passou tão rápido, ultimamente tão lentamente, e ao me olhar posso me ver, mas não me encontro. Sem me reconhecer como algo deixo de existir para ser tudo o que sou e esse tudo, vazio, sozinho, triste, parado, nulo, só eu, eu só... é somente tudo o que jamais quis ser, nada.
Sabia que se fosse o que sou, nada, seria assim, por isso vivi a vida escapando da realidade, me esquivando, correndo, driblando, sonhando e fugindo de mim.
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