quinta-feira, 17 de novembro de 2022

É preciso mudar urgentemente o uso da expressão "resistência".

Celebrada e empregada, comumente, para denominar espaços de memória, lugares de fala e de convivência, não acho a palavra "resistência" definir de maneira apropriada razões, sentimentos, reivindicações, pertinências e legitimidades de todo e qualquer movimento a substantivar o vívido, o viver, o existir.

Embora a expressão "resistência" enfatize, simbolize e reforce as marcas, as marchas, os movimentos contra a opressão, também dão créditos ao que não pode se esquecer, através dos registros, da documentação, mas não merece ser lembrado.

É perigoso e, infelizmente, muitos algozes, crimes e tiranias tornam-se referências para criminosos, tiranos, para desnaturados.

Assim como "deuses", monstros talvez desapareçam quando caem no ostracismo, deixam de serem citados e neles não se pode acreditar.

Por isso, mais preciso é sinalizar a presença, a inclusão, a participação, a contribuição e a composição resultante nos processos.

Assim, acho coerente as representações que assinam significados, onde é impossível ignorar sentidos e direções, identidades e identificações, diminuírem o som do "R" e colocar em evidência o entendimento, não somente sugerir reflexões.

O que está no primeiro plano, elemento fundamental, prioritário não é a resistência, resistir a um esquecimento, a um apagamento, aos ataques realizados pela ignorância, mas apesar e além de… consagrar o existir.

Por isso, acho, mais apropriado serem conhecidos, antes mesmo de lembrados e reconhecidos, como: espaço da/de existência, lugar da/de existência...de humanidade.

Pode parecer apenas uma alteração semântica, gráfica, morfológica, mas aponta para além do plano simbólico, da esfera significativa, do caráter representativo para uma compreensão concreta do, apesar dos contrários, dos resistentes, das resistências - nesse caso faz sentido -, existiu, existe, insiste, persiste e insistirá em existir por toda a existência, humana.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Será que no outro lugar a gente pode encontrar com a gente que a gente acha que nunca mais estará?

Com quem acha se perder?

Será?

Por achar que ser é maior que estar?

Será?

Gente que é importante a gente nunca deixa de ver, nas fotografias, nos objetos, na lembrança, na saudade, na memória, nos sinais, nos sonhos, elas existem, elas persistem, elas estão.

É gente que a gente é, e por isso nunca deixa de ser, vive dentro da gente, mas será que um dia a gente poderá estar junto delas novamente, será?

Sabe, se a gente soubesse seria gratificante, mas também muito perigoso. Peligroso...

Se a gente soubesse que poderia estar novamente com tanta gente tão importante poderia ter vontades de não estar mais com tanta gente tão importante quando achasse que elas não estão mais com a gente.

Mas, feliz ou infelizmente a gente não sabe.

Acha, é possível, sonha, pode ser improvável, mas jamais tem a certeza e essa dúvida, essa imprevisibilidade, faz a gente esperar o tempo decidir para a gente.

Dor é coisa de viver.

Só o ser vivo sente dor, enquanto sentir dor sabe ser e estar nessa dimensão, nessa emoção, nessa vida, vivo nesse amor, nessa importância, nessa necessidade, de ser e estar gente.

Hoje eu sei dizer o que preferiria, se pudesse, se soubesse, nessa hora, nesse agora, mas não sei se estaria certo.

Certamente, a incerteza é combustível do viver, e a gente vive sem saber, se soubesse, se tivesse, muito provavelmente preferiria não ter.

Viver é dúvida, dúvida que a gente precisa, pra viver.

Todo dia a vida corre risco e é arriscado viver, viver e ver algo vivo vir e surpreender.

Qual graça teria se andássemos sobre o fio da certeza e soubéssemos, programassemos, esperassemos tudo ser exatamente como imaginassemos?

Tudo fosse previsível, matariamos o improvável, o impossível, o surpreendente, o imponderavel, o algo mais, não daríamos chance ao acontecer.

E é sobre vida, é sobrevida, é sobre viver.

Minha mãe dizia, tantas outras pessoas também, que Deus, prefiro Deusas, escreve certo por linhas tortas… não acho mais que são linhas tortas, a gente só não sabe, não alcança, não consegue compreender, não tem a menor ideia de como rascunha, desenha e constrói o destino.

Imagina o corpo humano, a natureza, a complexidade inscrita em artérias, veias, fluxos, órgãos, composições, funções, quanta física, tanta química, cálculos, somas, subtrações, divisões, arranjos, combinações e inexplicáveis, e inacreditáveis, arranjos e, e inimagináveis, pelo menos pra gente, mortais, limitados, humanos, seres.

Humanos seres, cheios de histórias, escritas, escrotas, contadas, cantadas, tocadas sob o escrutínio do encantamento. 

Encanto, num canto qualquer, proporcionado pelo fato de não saber, mas aprender, descobrir, revelar, por simplesmente ser, estar, encontrar, ganhar, perder e as vezes achar se perder.

Eu preciso de você, da sua voz, do seu olhar, do seu cheiro, do seu sorriso, do seu sabor, gosto, do seu gosto, do seu calor, do seu...

De muito, de tudo, de um pouco preciso, preciso demais.

Preciso de você.

De você preciso.

Preciso para ser.

Para ser preciso.

Para ser, preciso.


domingo, 6 de novembro de 2022

Às vezes, quase sempre, quase todo dia me questiono se o castigo, a punição, a sentença, a penalização pode curar o ódio.
Penalizar por conta do ódio, do preconceito, da ignorância que se respira gera, pode gerar, ainda mais ódio, repulsa, mais preconceito.
Não sei a solução, mas acho o remédio contra o desconhecimento poder se chamar conhecimento, contra a distância a aproximação, contra o ódio só poder ser amor.
Ao invés de impor penas, pecuniárias, físicas, de qualquer natureza, acho que poderia ser melhor ajudar a aprender, ajudar a descobrir, ajudar a entender, ajudar a conhecer, ajudar a sentir.
Grosso modo, fazer com quem nutre, aprendeu a odiar, acumulou preconceitos, poder ver se desfazer, através da delicadeza, as suas certezas.
Assim, o remédio recomendado deveria ser aproximar-se do distante.
A distância permite ser indiferente, ao não poder estar perto se sentir insensível, e por isso até ser agressivo.
Curioso como a natureza ensina, tudo o que se teme é por conta da distância, do desconhecimento, da ignorância.
Todo animal é selvagem até se socializar. Ou seja, até o animal mais feroz, mais hostil, guardados os instintos primitivos, até se relacionar, até ganhar amor, até descobrir também poder dar amor, ser cuidado e cuidar, é só um animal selvagem.
A esse processo de aproximação, de acolhimento, da permissão de trocas, de ensinamento e aprendizado é dado o nome de adestramento. Mas é puro conhecimento, é pura confiança, é puro reconhecimento, é pura descoberta, é pura gratidão, é puro afeto, é pura retribuição, o puro amor que só é possível por estar perto, por deixar de ser deserto, por encher vazios, por poder receber e poder dar, por estar presente, por se acostumar, por não ser mais sozinho, ou sobreviver apenas na companhia de iguais, passar a ser diferente em meio a diferentes e ao conviver perceber semelhanças a ligarem todos, ligar seres, animal a animal, animal a vegetal, animal ao mineral.
A cura para a desumanidade só pode estar, ser encontrada, na própria humanidade.
Agressão, violência, castigo, punição não produz respeito, que deriva do reconhecimento e é a conjunção da admiração ao afeto, coisa do amar, mas o medo, que não permite e/ou contém qualquer traço de sentimento, pelo contrário é desequilíbrio do terror, é temor, é ressentimento.
Assim, a cura para todo ódio que há no mundo, talvez seja não odiar quem, por ignorância, desconhecimento, por causa da distância, do estranhamento, sente medo e é impedido de aprender amar.
Cuidar de si é cuidar do outro e esse outro precisa de cuidado, mesmo que muitos desses outros, disso, ainda não saibam.
Gente por gente, outro por outro.