Se, por acaso, alguém disser que desisti, onde quer que eu esteja, digo não.
Nunca desisti, mas até eu sei reconhecer o não é possível, quando
não dá mais para tentar, a força se esvai e é impossível.
Ninguém sabe realmente, e isso não é possível, quanto lutei diariamente.
Lutei contra minhas limitações, demências, afastamento
da mente, contra carências, contra paixões, platônicas, contra certezas,
contra a realidade e, ultimamente, luto contra o luto.
Sabe, eu morri muito, morri dias, por anos, morri muitas vezes e ainda estou morrendo.
Mas, chega um momento em que até um ser desprovido de poderes especiais,
de sorte, de espertezas, sabe não adiantar tentar não morrer, e a gente morre,
talvez, até pela ultima vez.
Enfim, não desisti, apenas reconheci que lutar só, que só lutar,
não adianta.
Para ser sincero, a vida ainda desistiu de mim, não sei o que isso é, se é bom, se é ruim ou outra coisa.
Para desistir ela precisaria
ter dado uma chance e isso ela não faz, pelo menos não percebi.
Tudo, desse nada que eu não tenho, foi na luta, consumiu forças, mas achava ser incansável, com vontade de lutar contra frustrações, contra ilusões, contra desejos e contra-desejos, mas agora se
mostra contraproducente e acho que a gente cansa.
Acho não ter mais forças para lutar para conter lágrimas e sorrir
sorrisos, quase todos sem graça, contra a tristeza de um existir demonstrar a alegria,
desmedida, imprópria, exagerada.
Acho não ter mais força para sentir e, mesmo assim, tentar afastar
a dor que dói e que eu sinto.
Eu sempre achei que amanhã seria melhor.
Que amanhã, numa esquina dessa vida, um sorriso eu poderia receber e dar para mim.
Eu queria me ver sorrindo com alegria, pelo menos uma vez, e não só para e por vocês.
Sempre achei que no amanhã, numa curva dessa vida, o milagre aconteceria e eu deixaria de ser pobre.
Não tem nada a ver com dinheiro.
Tá, eu enganei muita gente, não todas.
Mas, em alguns instantes, me mostrei.
Lembram quando me conheceram?
Nos primeiros dias eu era eu, só eu, eu só, calado, tímido, trancando
em mim.
Mas esse eu ninguém reparava, não conquistaria alguém.
Só quando eu me vestia do que eu não sou recebia atenção.
Por isso eu sorria, por isso despejava bobagens, em grandes
quantidades, por isso era bobo e até ridículo.
Sabia, só sendo o que eu não era, conseguindo ser o que não sou,
poderia ser um pouquinho do que queria ser.
Mas agora já não posso mais.
Não consigo.
Algumas vezes o disfarce caia, voltava a ser chato, vazio, sozinho...
nesse momento era o que era e não queria, por isso me escondia.
Sempre fiz coisas com segundas intenções.
Não, não sou generoso, não sou altruísta, não sou cordial.
Eu sempre fiz coisas por alguma retribuição.
Fosse um abraço, um beijo, uma amizade, um carinho, um sorriso, uma
palavra, fosse um reconhecimento.
Eu falava muito, muito, sobre o que ouvia.
Quase não perceberam, mas eu sabia e gostava de ouvir.
Até porque, se não fossem pelos ouvidos não teria nada na boca, nem pão, nem beijo, nem dentes, nem palavras.
Agora, como não ouço, não vejo, não encontro, não sei do outro e outro não quer saber de mim, acho que fiquei mudo nesse mundo.
O tempo todo me alimentei do outro e agora sozinho, só comigo, não deixei de sentir fome, mas, talvez, não tenha mais o que comer, nunca foi suficiente, mas necessário.
Não, eu não desisti.
Apenas quero fugir, sair daqui, desse lugar que bem conheço e, tenho
quase certeza, só vai me dar mais um pouco de mim. Ou seja, nada.
Preciso tentar uma nova chance, se tiver, em outro lugar, se tiver,
e ser algo diferente do que sou.
Eu nunca desisti de mim, desistir de mim não é desistir de mim, mas desistir de você.
...de vocês.
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