quarta-feira, 5 de maio de 2021

Você tem sede quê? Você tem fome de quê?

Na última cena do filme “O grande ditador” (1940), Charles Chaplin com as frases “Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja”, e “Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades”, rubrica a valorização das escolhas individuais.

As interrogações nesse título, extraída da música “Comida” (1987), reticencia um universo de respostas pessoais enquanto provoca reflexões a partir das diversas sedes e fomes. Grosso modo, as duas manifestações artísticas demonstram apreensão com o cerceamento de liberdades, padronização de ideias e uniformização das compreensões.

Provavelmente, os artistas se inspiraram num observar da natureza e das pessoas conduzidas, tocadas, tangidas por outras pessoas a construir percepções da condição humana a partir do viés capitalista. E, quase sempre, na produção de políticas públicas esqueceram de perguntar qual a sede e qual a fome?

De certo, é impossível produzir políticas a atender todas as demandas individuais. Porém, antes de deliberar seria prudente escutar para reconhecer as principais, as necessidades, as insuficiências de cada indivíduo e de cada grupo.

Ao ignorar na discussão princípios fundamentais do simples exercício de ouvir, o Estado orquestrado em desarmonia, nutre-se de uma lógica binária, arquitetado como um coliseu pitagórico, para normatizar e reduzir significados de qualidade de vida e de padrões comportamentais, fundamentalmente complexos.

No artigo “Consumo logo existo”, Frei Betto (2006), alerta: “o capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social”.

Basicamente, os indivíduos, devido ao poder de “enformação” dos capitais afanados pelos comuns/semelhantes “elitizados”, passaram a compreender a elevação dos índices de consumo, mesmo não saudáveis, como sinal de distinção. Mas, não se atenta em primeiro plano precisar se converter numa máquina, num produto, numa coisa, logo mercadoria a ser comprada por um outro tipo de consumidor. Não passa de um desumanizado que evidencia a reificação da condição humana e assim se vende e se desumaniza.

Na contramão desse processo indutivo, vertical e impositor, devemos mais ouvir para mais saber: a sua sede é de quê e qual a sua fome?

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