As vezes eu me revejo, com dois ou três anos, ao redor do poço, no quintal da minha casa.
Essa casa pegou fogo, e a agua do poço não pode apagar, mas isso é outro, do mesmo, assunto.
Me revejo rodeando, olhando o poço, pensando o que havia, se havia algo lá.
As vezes me revejo sozinho, ao redor daquele poço, olhando o fundo, pensando se ia cair, era objeto de diversão, de uma criança, que nem sabia o que era se divertir, talvez de contemplação, ou, se posso assim pensar, com dois ou três anos já olhava para o fundo do meu poço.
As lembranças são dispersas, surgem aleatoriamente, nem sei se são corretas, ou enchidas com a imaginação.
Recordo uma vez aparecer no poço uma cobra, tinha uma cruz na cabeça e comia um sapo.
Minha mãe ficava desesperada ao me ver rodeando o poço, e sempre interrompia esse passeio por um espaço perigoso no fundo do quintal.
Também tinha coqueiro, é disso que lembro, mas na recordação, possível, vem sempre a imagem do poço, perigoso, sentia medo, mas excitação, vontade de rodear.
As vezes me revejo, talvez não tenha nenhuma relação, com dois ou três anos, abrir o portão, da casa da minha avó, e caminhar para brincar com meus primos.
Errei o caminho, não os encontrei, depois errei o portão e não achei a casa da Dona Eurandina, a vovó.
Continuei a caminhar, caminhei, olhando e chorando todos os portões, até me perder e não conseguir me encontrar.
Ainda lembro, caminhei adiante, retornei alguns passos, ainda lembro procurar o portão da Rua Taquaruçu 104.
Não sei, nem lembro, se já sabia o endereço desde então, ou passou a ser uma preocupação da minha mãe, por me ver perdido, me ensinar a ter que lembrar.
Por um lado foi bom, pois foi saber o nome dos meus familiares, ajudou a um homem num bar, depois de me dar um guaraná, a me levar de volta para casa da vovó.
Não lembro bem a reação quando cheguei, quando de volta, quando estava achado, mas suponho de beijos, abraços e carinhos.
As vezes até penso, será que me perco para receber esse calor, manifestações, sinais de amor?
Se por um lado, como disse, foi bom, por outro, aprender a lembrar faz a gente não esquecer, e as recordações guardam emoções, guardam sentimentos, e não é muito fácil, embora necessário, conviver com a presença de maus momentos, tristezas, com a saudade do que não pode mais ser.
Ainda com dois ou três anos, lembro da baia de Guanabara, nem sabia que era ela, pela janela do quarto, do hospital.
Lembro que era obrigado a ficar sozinho, tomar injeção, precisava comer cenoura, não gostava, as vezes tinha gelatina, e só era realmente bom quando vinha e via a minha mãe, a minha tia Solange, a tia Maria, quando iam me visitar.
Mamãe dizia, -sinto muita, muita, saudade dela-, que todo dia ia, mas nem sempre a deixavam me encontrar.
Curioso o médico, ou a médica, um dia dizer que ela podia me perder, mas ela sempre disse não, que eu iria viver.
Fez promessa a São Cosme e Damião, mesmo sem muitos recursos, por anos distribuiu doces. E a gratidão era tão grande, que enquanto ela viveu, mesmo quitada a promessa, continuou a dar doces a crianças por toda sua vida. Minha irmã ainda faz isso, virou uma espécie de tradição.
Posso estar enganado, provavelmente esteja, mas o dia mais feliz da minha vida foi quando ela me levou dali.
Não sei se faz sentido, nem como chega ao fim, mas as vezes me sinto, e se sinto faz sentido, me revejo perdido, olhando pela janela para o tudo que parece nada, para a agua, rodeando o poço, olhando a agua, e no fundo caindo.
Talvez seja isso, uma vida relacionada, condicionada, movida por agua...
Sei que não faz o menor sentido, não é pra tentar entender, mas senti vontade de escrever, bem mau, sobre essa recordação, sobre a imagem e inação, sobre as saudades, sobre o aprisionado, sobre o distante de esquecer, sobre rodear poços e olhar, sem saber, o fundo, o profundo...
Me esforço e tento lembrar, acho que sim, não lembro direito, um dia que meu pai estava lá, mas acho que ele também ia me visitar.