sábado, 12 de junho de 2021

a caixa de guardar memórias

De longe, sem a necessidade de maiores estudos, é possível afirmar a espécie humana não ser entre os seres vivos a mais forte, resistente, resiliente. Provavelmente, não é também a mais inteligente, tampouco com o maior poder de adaptar e assimilar. O que a faz sobreviver e, com todas as críticas cabidas, a se desenvolver responde pela sua capacidade de preservar, conservar, cultivar, acessar e produzir memórias. Por mais que contestações ajam, guardar lembranças, experienciais, vividos, é sem dúvidas o grande diferencial do homo sapiens sobre as demais vidas.

Essa capacidade permite ao ser humano, com a utilização de recursos naturais, progressivamente transformados/aperfeiçoados, acumular experiências que registradas em  paredes, abrigos, folhas, peles, lâminas de madeira..., experimentos convertidos em aprendizados a serem transmitidos, modulados, utilizados, valorados, precificados.

Desde a era da mais completa ignorância até a da ignorância mais completa, o ser humano percebe a utilidade de encher o vazio, da sua existência, e assim reter maneiras de adquirir satisfações, prazeres, conhecimentos, como queira chamar, guardar e transformar o vivido em aportes, estoques, reconhecimentos. Do mesmo modo, desprazeres e insatisfações por precaução ou, ainda, no objetivo de algum momento descobrir e modificar essa sensação.

Através dessa “caixa” para colocar sentimentos sentidos, ele acumulou expertise, pode repetir movimentos exitosos, evitar fracassos, ou observar se aquele teórico fracasso poderia ser um sucesso para algo ainda não conhecido, uma resposta para a pergunta que ainda não existia. Na sua limitada condição humana de temporário, descobriu um esticar o tempo, estar no tempo, dizer até depois do seu tempo.  

E assim, as sucessivas gerações aproveitam dos êxitos aos fracassos, mas continuam a interroga-los, a pergunta-los. Não à toa, respostas conhecidas são usadas a novas perguntas, buscam reconhecimento, mas nem sempre correspondem e, não levadas ao descarte, passam a hibernar. Com isso, se institui o método de entregar respostas conhecidas as perguntas insurgentes. Mas como na caixa é incapaz de conter todas as respostas, se faz necessário produzir mais respostas, através da combinação de recursos naturais, do conhecimento acumulado e das perguntas já formuladas. O passo seguinte, necessário a evolução, tal qual fizeram os antepassados, é produzir novas respostas por meio de novas perguntas. Mas, o ser humano se acostumou a depender mais do acumulado, a cloroquina não deixa mentir, e com isso, utiliza muito a caixa que acha estar cheia, o que faz sentido, comprometendo o processo ao não descobrir realmente novas. Em função desse sistema de dependência, quase vicio, despreza muitas respostas para as quais não tem perguntas, ainda. Um exemplo do desiquilíbrio nessa relação pode ser constatado na devastação dos recursos naturais. Em função da destruição da fauna, flora e minerais, em detrimento ao conhecimento pré-existente, muitas respostas podem simplesmente deixar de existir para perguntas que irão surgir ou, como as respostas, também não mais possam ser pensadas.

Os povos primitivos, com todas as limitações, possivelmente estimulados pela precisão de encher a caixa, a vida, seus vazios, ou por não ter alternativa se encheram sem saber o que era saturação. Obviamente, muito foi perdido, possivelmente reencontrado na trajetória, ainda outras desperdiçadas, mas passiveis de recuperação. No entanto, o poder de destruir, evidencias, pistas, respostas, perguntas, dos povos originários, primitivos, pré, eram bem menores, limitados que o das gerações desenvolvidas. Nesse sentido, o desenvolvimento torna-se o grande algoz da espécie humana que pode, a qualquer momento, alcançar "conscientemente" o ponto de saturação e fazer “explodir” a caixa de guardar memórias, ainda, esquecer e não saber mais como fazer.

Se faz preciso pensar mais em encher, completar, diversificar, do que usar e recorrer, ilimitadamente, ao estoque.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

...

Sabe, de verdade, o que eu queria?

Queria que o que não podia fosse.

Que sonho virasse realidade,

Mas, só os sonhos que sonhassem bondade,

que para o sonho se realizar bastasse sonhar.

sonhasse vida, sonhasse sonhos, sonhasse liberdade. 

encontrasse encontro, colorisse sorrisos, amasse amar.


sábado, 29 de maio de 2021

Há tempos deixei de ser o protagonista da minha vida. 

Acho nem coadjuvante.

Sabe, quando disse ela não merecer, não era justo, me referia ao transferir responsabilidade, entregar mais um peso, um encargo. 

Na realidade sou eu que não mereço, não tenho méritos para sonhar, muito menos transformar esse sonho em realidade.

Me pergunto, já que não tenho nada, o que eu poderia dar?

Não tenho nada, muito menos algo especial. O máximo que poderia entregar são problemas embrulhados em passados. Por isso não acho justo.

Juro, queria ter algo especial para oferecer, mas na realidade não acredito ter.

Também tenho medo, medo de dizer e perder o que tenho, mudar a relação de amizade e confiança que há tempos, por minha causa, incorporou ingredientes e mudou.

Nem sei se queria sentir o que sinto, acho que sim, mas não sei se do jeito que sinto, mas sinto e sinto muito.

As vezes penso em me matar, em me morrer mais um pouquinho, mas não acho justo recusar a vida, negar o viver. Também não acho certo, por achar, fazer pessoas que amo chorar. Não quero ser o motivo de lágrimas, de dor, de dúvidas, de decepção.

Mas, as vezes é bem difícil suportar essa dor. Sei que não tenho mais o tempo como aliado, pelo contrário. Então, não tenho muito tempo para esperar, menos ainda para sonhar, mas você me fez sonhar com você.

Nos últimos anos, desde que deixei de viver para apenas sobreviver, contar tempo, os únicos momentos bons, excelentes, os melhores sorrisos, todos os melhores sentimentos, as melhores histórias, as melhores memórias, as reais emoções foram escritas com e por você.

Não seria justo desistir, desistir de tudo, desistir de mim, como já disse: não é desistir de mim, mas desistir de você.

Por isso me afastar, por isso tentar me apagar, por isso fazer silêncio, me silenciar, me calar, para não incomodar.

Tenho medo de ser invasivo, de ser chato, inconveniente, produzir motivos para reconhecer o erro e me desculpar.

Não gosto de pedir desculpas, simplesmente por saber que elas são necessárias quando são necessárias. Não quero fazer nada que faça essa necessidade ser necessária.

Por fim, não quero dizer tudo o que queria dizer por muito medo de te perder.

Você pode não saber o quanto é importante, mais que importante, respeitada, admirada, mais que admirada, amada, mais que amada, os significados, mas eu sei.

Por isso, por isso tudo, por tudo isso, só posso agradecer.

Não tenho nada para dar além de amor, reconhecimento, respeito, carinho, amizade, afetos, o rin, o fígado, o sangue e tudo mais ou qualquer coisa que possa fazer. Mas, o amor que a gente sente nem sempre, quase sempre, não é suficiente para fazer o amor que a gente ama amar, como a gente precisa e gostaria, a gente.

Não sei se te amo ou se amo você.

Por isso, por tudo isso, por isso tudo, só posso dizer...

Obrigado por me fazer respirar, suspirar, a mar...



sexta-feira, 28 de maio de 2021

Só, dor, perdido.

E eu que nunca gostei de dormir, afinal viver é para ser vivido, para ver e fazer movimentos, hoje faço tudo para não acordar.

Acho querer dormir, o máximo possível, para fugir dessa realidade mais parecida com pesadelo.

Já não consigo mais acordado sonhar.

Mentira, só não consigo acreditar em ser possível os tímidos sonhos não serem só sonhos.

Não consigo acreditar que na realidade possa se realizar e algum prazer dar.

Quase sempre sinto como me senti quando tinha 3 ou 4 anos, não lembro bem a idade, só dor, desespero, sensação de perdido, sem direção, de não conseguir encontrar quem amava, quem eu queria e precisava encontrar.

Ainda sei o endereço, mas o carinho, o afeto, o amparo não está mais lá. 

Ainda sei nomes, pessoas, mas não estão no lugar, só em mim.

É a mesma sensação de dor e solidão, do olhar pela janela, não mais de um quarto de hospital, e ver barquinhos na água, nem sabia que era da, nem o que era Baía, de Guanabara.

Mas, não esqueço a dor, ainda sinto, o vazio, a solidão.

Acordado é esse sentimento, o mal estar, um estar pedido, só e dói.

E eu, que não achava mais me mover, fui movido e ousei querer novamente sonhar.

Sei endereço, nome, pessoa, lugar, mas não estou lá.

E, se estou, por conta da minha imaginação, do meu desejo, da vontade de estar, não é como queria e gostaria de estar.

Sei não me encontrar, não me achar, novamente me perder, não ter alguém a me procurar.

Por isso, por isso tudo, não quero mais acordar.

Não quero e nem gosto, mas preciso dormir, não para sentir conforto, amparo, mas por carência, para não sentir o desamor. 

Por não gostar de estar perdido, não ter caminho, não me encontrar, por sentir sozinho estar e só sentir dor.

Dormindo, diferente de acordado, não lembro de sentir falta de alguém sentir por mim amor.

Dormindo, diferente de acordado, não sinto tão sozinho, não sinto tanta dor.

Não queria dormir, não queria me sentir perdido, não queria a sensação de solidariedade, mas só, sem estar sozinho, um milagre pode me fazer acordar e sentir que vale a pena fazer movimento e viver a vida.




prazer no movimento

O fim ultimo do ser humano é sentir prazer.

Para tanto ele se submete a promessa. 

Essa movimentação, mais que a realidade o encanta, promete, faz viver.

Mas o movimento por prazer, por necessidade de encontrar prazer, o afasta das promessas que viraram realidade na busca de mais prazer, de promessas e movimentos jamais suficientes para sacia-lo.

Ele até se recolhe, aparentemente se contenta, aceita a condição estabelecida, mas na realidade o faz por compreender essa etapa prometer leva-lo a descobrir e alcançar outras prazeres, outras promessas.

A realidade pode confortar, mas não satisfaz, não imobiliza e não faz cessar o ímpeto de sentir mais prazer, os prazeres que estão na égide do prometido, no movimento, na circularidade, no início do ciclo de uma eterna viagem sem fim.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Se não fosse

Seria muito mais fácil se não fosse o amor, mas se também não fosse o amor seria muito mais difícil.

2+2=4

Sim/não

On/off

É sempre mais fácil o racional, escolher a escolha já escolhida, legitimada, fingir ter opção.

Por outro lado, a emoção não pede sim, não diz que não.

Não é provável, nem previsível, nunca é errado ou certo, por não binária, é só possível.

Assim é o amor, não é perfeito, nem o contrário, muito pelo contrário e ainda bem.

A escolha é sempre difícil, mas não parece e se sabe muito bem a escolha quando se ama.

Amor não se escolhe, mas mesmo assim se ama o amor que não pode escolher.

E se pudesse teria outra escolha?

Não sei, mas provavelmente se escolheria amar o amor que não se escolheu, mas se ama.

Na realidade, seria impossível não fosse o amor... não seria possível sem amor.

Sempre me pergunto, o que eu faria para evitar?

Sinceramente, é esse complexo de super, de achar que só eu conseguiria, que tenho a fórmula mágica.

Mas, sei que não tenho, sei que não devo transferir responsabilidade e 


terça-feira, 25 de maio de 2021

Anacoluto

Solidão sozinho não é vida, também não é morrer, é desviver.

Ser sozinho não vive, não conta e escreve histórias, só, passa, o tempo.

Na solidão, a saudade, a lembrança, a memória, doente, alimento.

E alimento que sem se alimentar definha, degenera, esgota, deslembra, até esquecer.

Não, não faz rima, não dá pra rimar essa tristeza com essa solidão.

Não, não dá pra viver só e de sonhos, sem cremes, sem crimes, sem movimentos.

Não, não dá pra viver só e da ilusão.

Do querer.

De sorrisos em vão e alegres que se vão e não mais voltarão.

Não dá para esperar a esperança perdida vagar pelas ruas, olhar a lua, sem se encontrar.

Não pode reencontrar se encontro não há.

Se não encontra, não pode se e nem achar.

Só não encontra ninguém, muito menos o querer, o bem querer, o bem, o bem amar.

Só não se morre, mas também não se desmorre, não se vive, se desvive todo dia também.

Anacoluto. 

  




   

  

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Caixa de guardar

Memoria é caixa de guardar.

Guarda da trajetória, do percurso, as historias escritas, as descobertas realizadas, as experiências e aprendizados.

Mais que tudo, guarda sentimentos, importâncias, valências, valores, emoções vividas, experimentadas.    

A memoria é caixa registradora, registra sensações boas e ruins, mas principalmente as ótimas.

Essas ótimas, que realizam, dão prazer, provocam orgasmos, adentram sem esforço o repositório e nunca, nunca mais são esquecidas, mas lembradas, vividas, sentidas, eternizadas.

De todas a que fica, finca, é cravada e se inscreve no ser e se preserva viva, faz viver se chama amor.

Mas o que é viver?

Precisamos perguntar mais, o que é vida?

De certo, não tem uma resposta, nem só uma, mas algumas, a pensar nessa fabrica de motivos.

Viver é ter motivos...

sim, eu te amo, acho que todo mundo precisa de amor, de mais amor...de sorrir, sentir prazer, mesmo que mínimo, mesmo que rápido, efêmero.

E a gente só quer prazer, até quando retribui sente prazer.

Enfim, prazer faz aparecer sorrisos, faz bem, em qualquer hora e qualquer lugar.

Prazer é encontrar e sentir o sentido, uma realização...foda que o prazer dura tão pouco, e exige muito movimento, muito esforço.

Viver talvez seja isso, uma busca incessante, movimentos, para sentir prazer.

E, a gente nunca para de se mover, mesmo quando morre alimenta movimento, ações e reações, se transforma em outra energia, se transfere....

A gente vira, húmus, alimenta eucariontes, procariontes, protozoários, uni, pluricelulares...vira outra coisa, se transforma em gás, faz parte do ar e continua em movimento.

É ótimo ter a certeza de que alguém nos ama, né?

Porra, e eu amo um monte de gente, por motivos iguais e diferentes, gente que se movimenta e que não vejo mais mas se movem, são movimento e me movem.

É ótimo amar, sentir esse sentimento tão confuso, inexplicável, mas amor não se explica, se ama, se vive, se preserva, mesmo sem querer, na caixa de guardar o não esquecer e lembrar amar.    



  

quarta-feira, 5 de maio de 2021

te amo ou amo você?

Te amo e tem um milhão de motivos para justificar, 

mas como não sei se amor é preciso precisar, 

te amo porque te amo e te amo por te amar.

A única dúvida está em se eu te amo ou amo você?