De longe, sem a necessidade de maiores estudos, é possível afirmar a espécie humana não ser entre os seres vivos a mais forte, resistente, resiliente. Provavelmente, não é também a mais inteligente, tampouco com o maior poder de adaptar e assimilar. O que a faz sobreviver e, com todas as críticas cabidas, a se desenvolver responde pela sua capacidade de preservar, conservar, cultivar, acessar e produzir memórias. Por mais que contestações ajam, guardar lembranças, experienciais, vividos, é sem dúvidas o grande diferencial do homo sapiens sobre as demais vidas.
Essa
capacidade permite ao ser humano, com a utilização de recursos naturais,
progressivamente transformados/aperfeiçoados, acumular experiências que
registradas em paredes, abrigos, folhas, peles, lâminas de madeira..., experimentos convertidos em aprendizados a serem transmitidos,
modulados, utilizados, valorados, precificados.
Desde
a era da mais completa ignorância até a da ignorância mais completa, o ser
humano percebe a utilidade de encher o vazio, da sua existência, e assim reter
maneiras de adquirir satisfações, prazeres, conhecimentos, como queira chamar,
guardar e transformar o vivido em aportes, estoques, reconhecimentos. Do mesmo modo, desprazeres e insatisfações por precaução ou, ainda, no objetivo
de algum momento descobrir e modificar essa sensação.
Através
dessa “caixa” para colocar sentimentos sentidos, ele acumulou expertise, pode
repetir movimentos exitosos, evitar fracassos, ou observar se aquele teórico
fracasso poderia ser um sucesso para algo ainda não conhecido, uma resposta
para a pergunta que ainda não existia. Na sua limitada condição humana de
temporário, descobriu um esticar o tempo, estar no tempo, dizer até depois do seu
tempo.
E
assim, as sucessivas gerações aproveitam dos êxitos aos fracassos, mas continuam a
interroga-los, a pergunta-los. Não à toa, respostas conhecidas são usadas a novas
perguntas, buscam reconhecimento, mas nem sempre correspondem e, não levadas ao
descarte, passam a hibernar. Com isso, se institui o método de entregar
respostas conhecidas as perguntas insurgentes. Mas como na caixa é incapaz de conter
todas as respostas, se faz necessário produzir mais respostas, através da
combinação de recursos naturais, do conhecimento acumulado e das perguntas já
formuladas. O passo seguinte, necessário a evolução, tal qual fizeram os
antepassados, é produzir novas respostas por meio de novas perguntas. Mas, o
ser humano se acostumou a depender mais do acumulado, a cloroquina não deixa
mentir, e com isso, utiliza muito a caixa que acha estar cheia, o que faz
sentido, comprometendo o processo ao não descobrir realmente novas. Em função desse
sistema de dependência, quase vicio, despreza muitas respostas para as quais
não tem perguntas, ainda. Um exemplo do desiquilíbrio nessa relação pode ser
constatado na devastação dos recursos naturais. Em função da destruição da
fauna, flora e minerais, em detrimento ao conhecimento pré-existente, muitas
respostas podem simplesmente deixar de existir para perguntas que irão surgir ou,
como as respostas, também não mais possam ser pensadas.
Os
povos primitivos, com todas as limitações, possivelmente estimulados pela
precisão de encher a caixa, a vida, seus vazios, ou por não ter alternativa se encheram
sem saber o que era saturação. Obviamente, muito foi perdido, possivelmente
reencontrado na trajetória, ainda outras desperdiçadas, mas passiveis de recuperação.
No entanto, o poder de destruir, evidencias, pistas, respostas, perguntas, dos
povos originários, primitivos, pré, eram bem menores, limitados que o das
gerações desenvolvidas. Nesse sentido, o desenvolvimento torna-se o grande
algoz da espécie humana que pode, a qualquer momento, alcançar "conscientemente" o ponto de
saturação e fazer “explodir” a caixa de guardar memórias, ainda, esquecer e não saber
mais como fazer.
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