terça-feira, 15 de junho de 2021

A fome é de...?

 A fome é de que?

As respostas lançadas ao mundo social, gradativamente, fizeram insurgir novas perguntas a sociedade, aos indivíduos.

O ser humano, tal como é, produto da sociedade e do sistema capitalista, não mais se satisfaz apenas com a régua material, ele precisa sentir-se como um ser.

Ou seja, substantivar a sua representação como elemento participativo, interventor, produtor e reprodutor de um estar permanente como valor.

É muito mais que simplesmente ter dinheiro, ter poder, e poder interferir, mas ser uma espécie de ideia onde o ser transcende ao estar na fundamentação do pensar.

A ambição dessa mentalidade, como anteriores, é a de permanência, continuidade, prolongamento, extensão e essa peculiaridade humana não tolera a morte, pelo contrário, historicamente, ainda sem sucesso, tenta matar a morte, o fim. A solução para sua pretensa atemporalidade, facilitada pelo progresso tecnológico, talvez, possa até se conformar em um “estar disponível” para ser “acessado”. Todavia, como sublinha os esforços de não somente cultivar registros, mas os exercícios de manutenir e avivar memórias, recuperar, conservar e artificialmente, paradoxal, preservar faz reverberar um apenas talvez.

O ser humano desenvolveu e desenvolve capacidades tecno/cientificas que visam, publicitariamente, salvar vidas, mas na realidade por um bem mais precioso que é escapar da mortalidade. 

Assim, obviamente com a valorização de anteriores, o ser humano supervaloriza as suas ações, reações e efeitos através de contribuições a gerações vindouras.

Esse reconhecimento e valorização, dados ao passado, assina a necessidade de um lembrar permanente no presente que, aparentemente, não atina para o futuro e, por não se contentar em ser passado, pretende controlar a escala espaço-tempo. Com esse gesto, reivindica, abruptamente, o lugar da sua bandeira, da sua demanda, da sua necessidade, da sua ambição, inclusive, na política pública. 

Não por acaso os segmentos, fármaco e estético, da indústria química são tão bem sucedidos e o mote de quem mata seja sempre salvar.

O ser humano é desobediente, inconformado ou, mais bem, desrespeitoso. Sua negação a morte, a sua falta de respeito para com a finitude cria esperanças, promessas, muitas embrulhadas em dinheiro e, no mesmo pacote, até “deuses”.    

Embora as recompensas e compensações materiais não sejam negadas, mas percebidas como condição humana estabelecida e sejam naturalizadas, passaram a ocupar a categoria de efeito e não mais de causa. O material é consequência de um ser, é devir. 

Não é a mobilidade social, econômica, embora se faça presente, o motor ativo das ações, mas a busca de prazer, satisfação e permanências no percurso da realização. Percurso esse já compreendido pelo conhecimento prévio de uma estrutura pavimentada a impor dificuldades, percalços, obstáculos, armadilhas, obrigar retrocessos e impedir avanços.  

Essa tomada de consciência excita um desafio manifesto, acende o desejo de movimentar energias, agora como rotor, para vencer e alterar a estrutura. Não basta fazer parte do mecanismo, esse gesto ‘dado’ como oportunidade, ao trazer para perto, sinalizar junção, conceder suposta simetria, passar a percepção de estratégia para esfriar, acalmar, “subornar”, corromper, até dissolver resistências, agora cabe e resta a tentativa de muda-lo.

Assinala um despertar, tardio, para a redução do ser humano ao caráter de coisa, de número/volume, de mão-de-obra e, de uma operação que avança na precarização, inferiorização e substituição do explorado.

Desumanização, desnaturalização... o distanciamento da natureza, daquilo que é natural, oposto do artificial, pinçado da mente humana para conservar, fazer, resultar, também é natural, está no ambiente.

A diferença é que a natureza faz suas formas e conteúdos com perfeição impar a manter o principio da diversidade, da biodiversidade. Por sua vez, o ser humano, também uma criação natural, que se acha racional, tenta simplificar o complexo, assim produzir cópias, imperfeitas... certa forma, isso permite mais indivíduos “saborearem”, “experimentarem”, “conhecerem”, ‘reconhecerem” um pouco de algumas coisas, as selecionadas, as precificadas, as iguais as demais produzidas pela maquinas, maquinadas e artificiais na mente humana.

Em compensação, nessa operação de produzir através de artifícios, imitar, replicar, em vários sentidos, selecionados, levam a exaustão, a extinção, o não selecionado, desconhecidos tratados, quando muito, como resíduos... o problema é que os “resíduos”, respostas ainda sem perguntas, podem ou poderiam ser peças-chave da “maquina” que o “homem” tenta, mas ainda não tem habilitações plenas, para controlar.

Assim, o “homem” no afã de matar a morte, além de todo dia matar a vida, pode estar precipitadamente decretando o seu fim.

Deveríamos parar?

Não sabemos.

Mais que certo é que precisamos pensar mais, fazer o máximo, o possível, o impossível, para não destruir a possibilidade de perguntar.    

Da percepção como encargo, prejuízo e gasto público e do sentido de público, de pertencimento a todos, comum.

 

Maquinas, criadas por explorados cada vez mais atrofiados e monoqualificados, com status de especializados, cujos movimentos/conhecimentos repetitivos se limitam a especialidade, se encarregam, tradicionalmente, das tarefas mais complexas e, gradativamente, ganham mercado na realização das mais simples.     

Não à toa, o mote, o mantra, sempre é acompanhado ritimadamente da palavra ou sinônimos de mudança, simplesmente por compreender ser impossível com a inserção no sistema ter o poder de influenciar o produto final.

O produto final, resultado, será uma sociedade mais humana, posto a evidencia como objetivo, não mais é fruto de ajustes superficiais, mas da presença e preponderância de um novo “modelo de produção”, de uma nova mentalidade, de um novo sistema que, embora reconhecido como solidificado, pode ser mudado gradativamente através de ações e reações sem desprezar inferências.

Há tempos a ideia deixa de ser fazer parte do jogo para ações a propor o jogo.

Alavancas para - Espaços opacos e luminosos – Milton Santos.

Teoria da comunicação – Habermas – virada hermenêutica na teoria critica – visão instrumentalizada das relações sociais e ações humanas.

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