quarta-feira, 5 de maio de 2021

viver morrendo

Eu só queria pedir desculpas, mas não morri hoje, mais acho que nasci para não ser.

Morri desde o dia que nasci.

Por um tempo eu tive sonhos, fiz o possível, dentro das minhas impossibilidades, para ser vivo e parecer viver.
Eu quis ser, quis ser um bom filho, um bom irmão, um bom amigo, um bom companheiro, tio, sobrinho, profissional... ser um bom ser.
Quis ser o par de alguém, mas coitadas delas... peço desculpas, eu quis ser tanta coisa e só consegui nada ser, mas isso é tudo o que esse ser pode ser.
Quando eu partir, virar outra coisa, podem até achar fazer alguma falta, afinal a morte morre mais quando de perto se vê morrer.
Mas não é verdade, na realidade nada vai mudar, também nunca foi essa a vontade.
A única coisa que quis foi ser, ser alguma coisa, mas não dá pra ser, não consigo ser o que não posso ser.
Eu tô chorando, tô sofrendo, mas tô compreendendo...
Desculpa, e juro que tentei.
Tentei ser o melhor que pude, por amar, por respeitar, por respirar e não querer viver morrendo, morrendo de viver. 
Mais tentei não causar tristeza do que decepcionar, mas o meu melhor, o meu tudo é insuficiente.
Não sei o que vai acontecer, mas juro, juro que amei.

Você tem sede quê? Você tem fome de quê?

Na última cena do filme “O grande ditador” (1940), Charles Chaplin com as frases “Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja”, e “Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades”, rubrica a valorização das escolhas individuais.

As interrogações nesse título, extraída da música “Comida” (1987), reticencia um universo de respostas pessoais enquanto provoca reflexões a partir das diversas sedes e fomes. Grosso modo, as duas manifestações artísticas demonstram apreensão com o cerceamento de liberdades, padronização de ideias e uniformização das compreensões.

Provavelmente, os artistas se inspiraram num observar da natureza e das pessoas conduzidas, tocadas, tangidas por outras pessoas a construir percepções da condição humana a partir do viés capitalista. E, quase sempre, na produção de políticas públicas esqueceram de perguntar qual a sede e qual a fome?

De certo, é impossível produzir políticas a atender todas as demandas individuais. Porém, antes de deliberar seria prudente escutar para reconhecer as principais, as necessidades, as insuficiências de cada indivíduo e de cada grupo.

Ao ignorar na discussão princípios fundamentais do simples exercício de ouvir, o Estado orquestrado em desarmonia, nutre-se de uma lógica binária, arquitetado como um coliseu pitagórico, para normatizar e reduzir significados de qualidade de vida e de padrões comportamentais, fundamentalmente complexos.

No artigo “Consumo logo existo”, Frei Betto (2006), alerta: “o capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social”.

Basicamente, os indivíduos, devido ao poder de “enformação” dos capitais afanados pelos comuns/semelhantes “elitizados”, passaram a compreender a elevação dos índices de consumo, mesmo não saudáveis, como sinal de distinção. Mas, não se atenta em primeiro plano precisar se converter numa máquina, num produto, numa coisa, logo mercadoria a ser comprada por um outro tipo de consumidor. Não passa de um desumanizado que evidencia a reificação da condição humana e assim se vende e se desumaniza.

Na contramão desse processo indutivo, vertical e impositor, devemos mais ouvir para mais saber: a sua sede é de quê e qual a sua fome?

quinta-feira, 29 de abril de 2021

acordar é preciso

Há dias que eu não acordo.

Pra ser honesto, no tempo da honestidade funesta, sádica, desonesta, há anos que eu não.

Acordo e não desperto, levanto e não acordo. 

Ver, vendo, mais passado, passando, engolindo o futuro, que morre.

A morte do passado é doença presente a matar o que vinha vindo.

A gente, daqui de dentro, vendo a vida morrer lá fora e não fazendo nada.

Inerte, é sobre vida, ver ganancia, honestidade desonesta, psicótica, psicopatética, ignorante matar até a morte.

Não chora mais como chorava, de tanto chorar a lágrima acaba cansada,

de tanto morrer alguém esse alguém é só mais alguém antes de mim depois de esse fim.

Acabou a carne, acabou o carnaval.

Vai ser muito difícil reaprender a viver com gente perto da gente depois de todo dia morrer sozinho.

Acordar é preciso, viver não, mas é preciso...

    

  


terça-feira, 27 de abril de 2021

A palavra e o som.

 As palavras e as coisas, as coisas e as palavras...

O que é a palavra, obedece códigos e se limita a quem compreende o que quer dizer, mesmo assim a palavra bem-dita alcança...

Enquanto o som, ser universal, as vezes indecodificável, ou quase, transporta, o som, mesmo maldito, consegue dizer, pode afrontar e sempre atinge....

Quantas palavras são necessárias para ser compreendida e dar um alerta, um pedido de socorro?

Por isso, a palavra espera...

Mas o som, até de um grito, é desesperado, é compreensível, é imediato...  

A palavra é contida, estática, o som movimenta, o som dança...

Na palavra o sentimento sai de quem escreve e nem sempre chega, como tal, a quem lê...no meio do caminho ela pode se transformar, o que foi dito pode ser ouvido diferente quando se lê sem o outro escutar.

Por sua vez, ao ser, transporte, cabe, sentimentos, carregar, transportar, encontrar.

Contudo podem os sentimentos serem diferentes, consonantes ou discordantes....

O som sempre é, sentido, faz sentido e se sentir...  

É possível, mas dificilmente o som, fundamentalmente, deixa de chegar com outra conotação...

A palavra é Monalisa, dela o som é o sorriso...

A palavra precisa de um se fazer sentir, mas o som apenas se sente...

O toque, o tato, tanto trata a palavra quanto o som, mas o som toca...

A palavra emociona, o som é moção...

O som tem nome próprio, objetivo, incisivo... a palavra, muitas vezes, até sobrenome tem...

A palavra é formal, as vezes distante, consciente

Informal, natural, mineral, animal o som é íntimo, é próximo, é presente...

Vem de dentro, sai pra fora...

A palavra é procurada, é convidada, é recebida por quem quer receber

O som não bate portas, invade, arromba, pula janela, não é preciso nem achar, 

de onde vem o som?

A palavra precisa tempero, o som é naturalmente doce, salgado, acido, amargo, é tempo errado, certo também.

Quando a palavra encontra o som, o som empresta sonoridade, a palavra escrita ganha cor e ao fazer amor com o tom que faltava é palavra falada, é palavra dita, é palavra encantada... que se espalha para além da compreensão, não pelo que diz, menos pelo que fala, mais por fazer ouvir o som... aquilo que se pode ouvir... a palavra é sentida, a palavra precisa, o som basta!

A palavra viaja, o som vira, revira, gira mundo...

Palavra canta, o som dança...

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Armas

A metáfora das armas

As armas de Jorge é metáfora de ser e encontrar força no amor,

A espada é planta, planta que planta e implanta raízes no chão por amar elementos, terra, água, sol, ar... 

A lança, o objeto a encurtar distâncias, provocar aproximação a alcançar o coração,

O meu, o teu, o seu, o nosso coração despido, vestido e revestido com roupas, energias a colorir de vida toda cor, cor ação...são

Por falar em cor, o cavalo branco é também preto, azul, rosa, amarelo, verde e vermelho, da cor da capa, da capa a cobrir qualquer cor...  

E o dragão, o dragão não passa da dor, da dor existente, persistente, dentro da gente, dor que a gente sente e combatida precisa ser, por lutas, principalmente, contra aquilo que não consegue ser bom na gente, se não ela invade, nos ataca, nos engole...

Jorge, suas armas, são, metáforas, de outra dimensão, armas sobrenaturais, brotadas na alucinação que se chama amizade e respeito a defender de toda ameaça a vida.

Mas, o que nos mata é não nos armarmos, diuturnamente, seguindo as batalhas da vida que só são e serão vencidas quando nos amarmos no encontro de todo amor.  

milagre

 O que a gente chama milagre é o possível escondido atrás do medo que a gente chama de provável...

Qualquer coisa grita

Ei você!!!

Sabe aquela frase, sem sentido, que eu repito insistentemente?

Podia ser, mas o autor não sou eu, assim como parece tudo em minha vida, se na verdade ela é minha.

Daqui a pouco farão mais anos, em maio e dezembro, que duas vezes minha vida escureceu e perdeu a cor.

Mesmo assim, eu continuo a gritar, mesmo que talvez eles não possam ouvir.

Outro dia pensei, o que diria minha mãe e meu pai se eles pudessem, de lá, me ouvir?

Provavelmente, pelo que aprendi com eles, que me deram o preciso de diversas formas, principalmente amor, para compreender a vida não ser, como na música, exatamente como a gente quer!

Se eles ouvirem, por isso deram força a permitir ganhar presentes em forma de “você”, para eu abrir a caixinha e novamente colorir a vida.

Que como, o poeta, pessoa é preciso, como em outra música, com cores novas, com cores vivas, colorir a vida que começa quando se perde e só sente dor.

Por falar nisso, tem tanta coisa que eu queria dizer para eles, tanta coisa que já colori...

Enfim, não importa se eu estarei, ou se qualquer outra pessoa estará perto quando você estiver a precisar, mas enquanto houver a possibilidade do grito é preciso gritar.

Grita, pois o imoral dessa história, que a gente vive só uma vez, é esperar e com isso deixar de perceber que o grito já foi ouvido, e a força desse grito dá cores para continuar a colorir a vida que desbotou!

Qualquer coisa grita!

Parte

Parte...

Na verdade, gente é feita de um monte de pedaço de gente, de outra gente.

Pedaço, metade, parte, de pessoas a fazer amor, a outra metade é outra parte.

Quando algumas partes partem sobra na caixa um pedaço das partes.

É, as partes partem.

Não é possível distinguir qual a parte mais importante se foi, se vai ou ficou.

Mas a parte que parte fica arquivada nas gavetas da outra metade de parte,

De qualquer modo continua e mesmo faltando um, dois pedaços, o eterno, o sobrenatural ainda faz parte.

Nós somos a parte que falta, em compensação também a parte que completa,

Dentro dos nossos porões, guardamos a soma de todas as partes.

Mas as partes não morrem, esperam e podem se fundir a outras partes,

A parte que falta se completa da parte que sobra,

Quando o encontro acontece a parte perdida namora a parte é achada,

ruídos, tons, notas, acordes acorda gritos e sons.

Substancias, aromas combinam odores e o cheiro traduz um perfume.

As caricias nas partes insinuam, coisas, o atrito e o ritmo aquece a carne até o fluido misturar pimenta e sal

Carinhos afora afloram sentidos a explodir desejos, gostos, energias e sabores.

Nesse encontro das partes a vida floresce antes do fruto se enfeitar de cor.

Ao ver, tocar, sentir a tua parte o corpo ressuscita,

O encontro da tua parte com a minha parte ainda viva é o mais que tudo,

A parte que partiu, a parte que ficou, a parte encontra a parte que sobrou

Quando a minha parte encontra a tua parte fazemos amor.

A parte da tua parte com a minha parte é origem de outra parte.

uma criativa e frutífera fábrica que com matéria prima da tua e de minha parte faz arte.

Semente e fruto sucedem a flor...

Despedida

A gente nunca quer se despedir, nunca quer ir para não voltar, mas...

Entre os vivos o humano é, aparentemente, o único ser cujo movimento pretende ir além do movimento.

Por isso, provavelmente, mesmo ameaçado e correndo riscos tem conseguido, há tempos, fugir das ameaças e dos riscos.

É paradoxal, mas o ato de pensar o tempo que ainda não veio, mas virá, viver a fugir do destino, fazer perguntas antes de respostas possíveis, de raciocinar, o leva a criar uma “máquina do tempo” que ele controla e é controlado.

A capacidade, desenvolvida, de perceber os desiquilíbrios que ele mesmo provoca e propor remendos desencadeou um processo onde movimento precede “promessas” de movimentos.

Não é suficiente, mas necessário, seguir o cronograma, pois, como pudesse, carece, ambiciona, deseja, modifica-lo. Na realidade, precisa assumir o controle do tempo, do movimento. Talvez, provisoriamente, como não consegue, a sua salvação ou perdição seja prorrogar, esticar, alongar o quanto puder até o dia de ser possível.

Para tanto, cria artefatos e artifícios materiais, mecânicos e simbólicos justificados na crença, a qual não precisa ser comprovada.

Assim, o ser humano reforça a sua condição de Prometeu acorrentado, ao tempo.

A promessa de vida, impossível como individuo, transmite/transcende/transforma/transfere o compromisso de eternidade através da memória, de conhecimentos, a gerações futuras e acredita, de alguma forma, ter algum controle sobre o tempo, sobre o movimento.

Se controla, é controlado ou não é relativo, assim como relativas são as despedidas daqueles que se vão e ficam dentro da gente, até como DNA, mas é indiscutível a preservação.

sábado, 24 de abril de 2021

...

 Ainda não sei como fazer, quando será, mas um dia vou plantar um sorriso no teu sentir, no seu olhar.