segunda-feira, 26 de abril de 2021

Despedida

A gente nunca quer se despedir, nunca quer ir para não voltar, mas...

Entre os vivos o humano é, aparentemente, o único ser cujo movimento pretende ir além do movimento.

Por isso, provavelmente, mesmo ameaçado e correndo riscos tem conseguido, há tempos, fugir das ameaças e dos riscos.

É paradoxal, mas o ato de pensar o tempo que ainda não veio, mas virá, viver a fugir do destino, fazer perguntas antes de respostas possíveis, de raciocinar, o leva a criar uma “máquina do tempo” que ele controla e é controlado.

A capacidade, desenvolvida, de perceber os desiquilíbrios que ele mesmo provoca e propor remendos desencadeou um processo onde movimento precede “promessas” de movimentos.

Não é suficiente, mas necessário, seguir o cronograma, pois, como pudesse, carece, ambiciona, deseja, modifica-lo. Na realidade, precisa assumir o controle do tempo, do movimento. Talvez, provisoriamente, como não consegue, a sua salvação ou perdição seja prorrogar, esticar, alongar o quanto puder até o dia de ser possível.

Para tanto, cria artefatos e artifícios materiais, mecânicos e simbólicos justificados na crença, a qual não precisa ser comprovada.

Assim, o ser humano reforça a sua condição de Prometeu acorrentado, ao tempo.

A promessa de vida, impossível como individuo, transmite/transcende/transforma/transfere o compromisso de eternidade através da memória, de conhecimentos, a gerações futuras e acredita, de alguma forma, ter algum controle sobre o tempo, sobre o movimento.

Se controla, é controlado ou não é relativo, assim como relativas são as despedidas daqueles que se vão e ficam dentro da gente, até como DNA, mas é indiscutível a preservação.

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