quinta-feira, 29 de abril de 2021

acordar é preciso

Há dias que eu não acordo.

Pra ser honesto, no tempo da honestidade funesta, sádica, desonesta, há anos que eu não.

Acordo e não desperto, levanto e não acordo. 

Ver, vendo, mais passado, passando, engolindo o futuro, que morre.

A morte do passado é doença presente a matar o que vinha vindo.

A gente, daqui de dentro, vendo a vida morrer lá fora e não fazendo nada.

Inerte, é sobre vida, ver ganancia, honestidade desonesta, psicótica, psicopatética, ignorante matar até a morte.

Não chora mais como chorava, de tanto chorar a lágrima acaba cansada,

de tanto morrer alguém esse alguém é só mais alguém antes de mim depois de esse fim.

Acabou a carne, acabou o carnaval.

Vai ser muito difícil reaprender a viver com gente perto da gente depois de todo dia morrer sozinho.

Acordar é preciso, viver não, mas é preciso...

    

  


terça-feira, 27 de abril de 2021

A palavra e o som.

 As palavras e as coisas, as coisas e as palavras...

O que é a palavra, obedece códigos e se limita a quem compreende o que quer dizer, mesmo assim a palavra bem-dita alcança...

Enquanto o som, ser universal, as vezes indecodificável, ou quase, transporta, o som, mesmo maldito, consegue dizer, pode afrontar e sempre atinge....

Quantas palavras são necessárias para ser compreendida e dar um alerta, um pedido de socorro?

Por isso, a palavra espera...

Mas o som, até de um grito, é desesperado, é compreensível, é imediato...  

A palavra é contida, estática, o som movimenta, o som dança...

Na palavra o sentimento sai de quem escreve e nem sempre chega, como tal, a quem lê...no meio do caminho ela pode se transformar, o que foi dito pode ser ouvido diferente quando se lê sem o outro escutar.

Por sua vez, ao ser, transporte, cabe, sentimentos, carregar, transportar, encontrar.

Contudo podem os sentimentos serem diferentes, consonantes ou discordantes....

O som sempre é, sentido, faz sentido e se sentir...  

É possível, mas dificilmente o som, fundamentalmente, deixa de chegar com outra conotação...

A palavra é Monalisa, dela o som é o sorriso...

A palavra precisa de um se fazer sentir, mas o som apenas se sente...

O toque, o tato, tanto trata a palavra quanto o som, mas o som toca...

A palavra emociona, o som é moção...

O som tem nome próprio, objetivo, incisivo... a palavra, muitas vezes, até sobrenome tem...

A palavra é formal, as vezes distante, consciente

Informal, natural, mineral, animal o som é íntimo, é próximo, é presente...

Vem de dentro, sai pra fora...

A palavra é procurada, é convidada, é recebida por quem quer receber

O som não bate portas, invade, arromba, pula janela, não é preciso nem achar, 

de onde vem o som?

A palavra precisa tempero, o som é naturalmente doce, salgado, acido, amargo, é tempo errado, certo também.

Quando a palavra encontra o som, o som empresta sonoridade, a palavra escrita ganha cor e ao fazer amor com o tom que faltava é palavra falada, é palavra dita, é palavra encantada... que se espalha para além da compreensão, não pelo que diz, menos pelo que fala, mais por fazer ouvir o som... aquilo que se pode ouvir... a palavra é sentida, a palavra precisa, o som basta!

A palavra viaja, o som vira, revira, gira mundo...

Palavra canta, o som dança...

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Armas

A metáfora das armas

As armas de Jorge é metáfora de ser e encontrar força no amor,

A espada é planta, planta que planta e implanta raízes no chão por amar elementos, terra, água, sol, ar... 

A lança, o objeto a encurtar distâncias, provocar aproximação a alcançar o coração,

O meu, o teu, o seu, o nosso coração despido, vestido e revestido com roupas, energias a colorir de vida toda cor, cor ação...são

Por falar em cor, o cavalo branco é também preto, azul, rosa, amarelo, verde e vermelho, da cor da capa, da capa a cobrir qualquer cor...  

E o dragão, o dragão não passa da dor, da dor existente, persistente, dentro da gente, dor que a gente sente e combatida precisa ser, por lutas, principalmente, contra aquilo que não consegue ser bom na gente, se não ela invade, nos ataca, nos engole...

Jorge, suas armas, são, metáforas, de outra dimensão, armas sobrenaturais, brotadas na alucinação que se chama amizade e respeito a defender de toda ameaça a vida.

Mas, o que nos mata é não nos armarmos, diuturnamente, seguindo as batalhas da vida que só são e serão vencidas quando nos amarmos no encontro de todo amor.  

milagre

 O que a gente chama milagre é o possível escondido atrás do medo que a gente chama de provável...

Qualquer coisa grita

Ei você!!!

Sabe aquela frase, sem sentido, que eu repito insistentemente?

Podia ser, mas o autor não sou eu, assim como parece tudo em minha vida, se na verdade ela é minha.

Daqui a pouco farão mais anos, em maio e dezembro, que duas vezes minha vida escureceu e perdeu a cor.

Mesmo assim, eu continuo a gritar, mesmo que talvez eles não possam ouvir.

Outro dia pensei, o que diria minha mãe e meu pai se eles pudessem, de lá, me ouvir?

Provavelmente, pelo que aprendi com eles, que me deram o preciso de diversas formas, principalmente amor, para compreender a vida não ser, como na música, exatamente como a gente quer!

Se eles ouvirem, por isso deram força a permitir ganhar presentes em forma de “você”, para eu abrir a caixinha e novamente colorir a vida.

Que como, o poeta, pessoa é preciso, como em outra música, com cores novas, com cores vivas, colorir a vida que começa quando se perde e só sente dor.

Por falar nisso, tem tanta coisa que eu queria dizer para eles, tanta coisa que já colori...

Enfim, não importa se eu estarei, ou se qualquer outra pessoa estará perto quando você estiver a precisar, mas enquanto houver a possibilidade do grito é preciso gritar.

Grita, pois o imoral dessa história, que a gente vive só uma vez, é esperar e com isso deixar de perceber que o grito já foi ouvido, e a força desse grito dá cores para continuar a colorir a vida que desbotou!

Qualquer coisa grita!

Parte

Parte...

Na verdade, gente é feita de um monte de pedaço de gente, de outra gente.

Pedaço, metade, parte, de pessoas a fazer amor, a outra metade é outra parte.

Quando algumas partes partem sobra na caixa um pedaço das partes.

É, as partes partem.

Não é possível distinguir qual a parte mais importante se foi, se vai ou ficou.

Mas a parte que parte fica arquivada nas gavetas da outra metade de parte,

De qualquer modo continua e mesmo faltando um, dois pedaços, o eterno, o sobrenatural ainda faz parte.

Nós somos a parte que falta, em compensação também a parte que completa,

Dentro dos nossos porões, guardamos a soma de todas as partes.

Mas as partes não morrem, esperam e podem se fundir a outras partes,

A parte que falta se completa da parte que sobra,

Quando o encontro acontece a parte perdida namora a parte é achada,

ruídos, tons, notas, acordes acorda gritos e sons.

Substancias, aromas combinam odores e o cheiro traduz um perfume.

As caricias nas partes insinuam, coisas, o atrito e o ritmo aquece a carne até o fluido misturar pimenta e sal

Carinhos afora afloram sentidos a explodir desejos, gostos, energias e sabores.

Nesse encontro das partes a vida floresce antes do fruto se enfeitar de cor.

Ao ver, tocar, sentir a tua parte o corpo ressuscita,

O encontro da tua parte com a minha parte ainda viva é o mais que tudo,

A parte que partiu, a parte que ficou, a parte encontra a parte que sobrou

Quando a minha parte encontra a tua parte fazemos amor.

A parte da tua parte com a minha parte é origem de outra parte.

uma criativa e frutífera fábrica que com matéria prima da tua e de minha parte faz arte.

Semente e fruto sucedem a flor...

Despedida

A gente nunca quer se despedir, nunca quer ir para não voltar, mas...

Entre os vivos o humano é, aparentemente, o único ser cujo movimento pretende ir além do movimento.

Por isso, provavelmente, mesmo ameaçado e correndo riscos tem conseguido, há tempos, fugir das ameaças e dos riscos.

É paradoxal, mas o ato de pensar o tempo que ainda não veio, mas virá, viver a fugir do destino, fazer perguntas antes de respostas possíveis, de raciocinar, o leva a criar uma “máquina do tempo” que ele controla e é controlado.

A capacidade, desenvolvida, de perceber os desiquilíbrios que ele mesmo provoca e propor remendos desencadeou um processo onde movimento precede “promessas” de movimentos.

Não é suficiente, mas necessário, seguir o cronograma, pois, como pudesse, carece, ambiciona, deseja, modifica-lo. Na realidade, precisa assumir o controle do tempo, do movimento. Talvez, provisoriamente, como não consegue, a sua salvação ou perdição seja prorrogar, esticar, alongar o quanto puder até o dia de ser possível.

Para tanto, cria artefatos e artifícios materiais, mecânicos e simbólicos justificados na crença, a qual não precisa ser comprovada.

Assim, o ser humano reforça a sua condição de Prometeu acorrentado, ao tempo.

A promessa de vida, impossível como individuo, transmite/transcende/transforma/transfere o compromisso de eternidade através da memória, de conhecimentos, a gerações futuras e acredita, de alguma forma, ter algum controle sobre o tempo, sobre o movimento.

Se controla, é controlado ou não é relativo, assim como relativas são as despedidas daqueles que se vão e ficam dentro da gente, até como DNA, mas é indiscutível a preservação.

sábado, 24 de abril de 2021

...

 Ainda não sei como fazer, quando será, mas um dia vou plantar um sorriso no teu sentir, no seu olhar.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

movimento...

Vida é movimento, e o ser humano, resultado vivo de movimentos e movimentações, de transformações, físicas e mentais, tem como fundamento viver e se movimentar.

Por isso, de tanto ver, de tanto sentir, de tanto ser, viver natureza em movimento, colhe, recolhe, forma, deforma, se transforma e transforma o natural.

Sob a justificativa, argumento, legitimo, de suprir necessidades desmonta a natureza para com emprego do que chama arte fazer artificial, mas de modo “artificial” tudo que tenta e consegue reproduzir, quase sempre, é o que é tão natural.

Na realidade a necessidade é de movimento, de movimentar.

Depois de destruir precisa reconstruir, depois de matar ressuscitar, de desmatar reflorestar, de perder recuperar, depois de terminar seu único objetivo, enquanto vivo, é recomeçar, na verdade não quer, mas precisa.

A natureza, em constante movimento, naturalmente criou com movimento um ser para se movimentar e o movimento está na e é a sua gênese, seu princípio, seu fim, sua/seu geist.

Parado, inerte, sem movimento, morre por dentro, por fora, por...

Por ainda não entender, ignorar cadeia, processo, ciclo, que mesmo quando aparentemente não mais conseguir se movimentar, para salvar suas propriedades físicas e mentais, ainda será movimento, organismo em de e composição, já que a vida é movimento a movimentar outros movimentos, energias.

O movimento não morre, nem deixa de estar, apenas se transforma em alguma outra coisa, em outro qualquer lugar a se movimentar.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Ensinamentos da Mamãe

Lembro, por volta de 1977, minha mãe entrar numa discussão após ouvir um amigo da família dizer que seus filhos não fariam serviços domésticos por não ser coisa de homem.

Na continuidade da discussão, depois de argumentar sobre a utilidade dessa ajuda nos trabalhos caseiros, quase sempre desvalorizados, e do carinho contido no ato retrucou: quanta ignorância!

Desde muito pequeno, também lembro, ouvir minha mãe dizer que seus filhos poderiam ser qualquer coisa, tudo o que quisessem, se assim o quisessem. Dizia ela, apenas não gostaria que fossem desonestos, criminosos, bandidos. Mas, se por acaso desviassem desses seus preceitos mais íntimos, embora reprovasse, não deixaria de amá-los, de defendê-los e de respeitá-los.

Com o passar do tempo, de tanto ouvir pronunciamentos e posicionamentos preconceituosos, soltos no convívio social, confesso, adquiri hábitos e falas ao encontro. Mas, sempre lembrei, e cheguei a questionar a validade dos ensinamentos da minha mãe, comuns, que determinavam, independente de estereótipos, conceitos e preconceitos, acima de tudo o respeito.

Hoje, mais ignorante do que supunha - tem pouco tempo que aprendi o significado do nome Cibele - principalmente, por descobrir que continuo e preciso aprender e reaprender até aquilo que minha mãe há tempos ensinava. Que não importa como deveria ou não uma pessoa ser, o que importa é a pessoa, é respeitá-la, é amá-la, não pelo que a gente acha que é, pelo que ela quer ser, mas por ela ser.