domingo, 1 de outubro de 2023

 Não esqueço as inúmeras vezes que a noite, a madrugada, não acabava.

Depois da noite, da madrugada, desesperada, via que o dia amanhecia, e a solidão perdurava.

Depois do bar, do restaurante, da boate, da festa, da "noite", as pessoas iam para suas casas, e eu ainda tinha horas solitárias a esperar.

Depois de andar, sozinho, esperava o ônibus chegar.

Depois esperava no ônibus ele saír, só partem de hora em hora.

Depois dessa espera, esperava vencer a distância e atravessar o percurso, um longo caminho, até minha distante casa.

As vezes o sono, o cochilo de um sozinho no coletivo, ainda fazia o trajeto ser mais longo. Muitas vezes precisei caminhar por quase horas para voltar ao ponto onde deveria parar.

Imaginava a quantas horas as pessoas, amigas e amigos, já estariam seguras, confortáveis e, provavelmente, dormindo.

Ou, o que deveriam ter feito após eu seguir e não mais estarmos juntos.

Só depois de muitas horas, finalmente, conseguia chegar.

Muitas vezes ouvia minha mãe perguntar algo, conversar alguma coisa, fazer um carinho, dar um beijo, um abraço, ou ir olhar, conferir eu estar no quarto, na cama…se dizer preocupada e só conseguir dormir quando sabia estar.

Várias vezes pensei: são duas horas para ir, sem contar a preparação, tomar o banho que, ao chegar no lugar, já estava vencido, sem nenhum frescor, fumado, desperfumado, seco…e, ainda mais de duas horas para voltar, bêbado e, respeitando a escassez dos transportes, tentando adivinhar qual a menos pior opção para vencer as longas distâncias, as baldeações, enfim… com todos esses obstáculos, será que valeria mesmo a pena sair de casa?

Mas, o fazia, sabia da viagem, o preço a pagar para encontrar, para junto estar, para sorrir, e na volta só, poder pensar, refletir sobre o que aconteceu, sobre o que não aconteceu, sobre o que queria que acontecesse.

Ia para viver experiências, os encontros, construir memórias, compartilhar histórias, estar acompanhando e ser companhia.

Mas, sabe o que acontecia?

Eu viajava sozinho para, por algum momento, não me sentir sozinho, mas tantas vezes, a maioria, me sentia.

Não só na ida e na volta, mas o tempo todo, a emoção, o sentimento, a sensação são exclusivas, são pessoais, individuais…e só gente sabe o tamanho indecente da dor que a gente sente.

Que seguramente dói muito mais do que consegue transmitir a palavra.

Eu demorei muito tempo para aceitar a solidão.

Aceitar, aceitar, não sei se aceitei, se consigo ou conseguirei.

Mas hoje a distância é muito maior.

É aínda mais difícil de encontrar, muita gente não pode, tem outros compromissos, outras prioridades, ou não faz questão de estar no mesmo lugar.

Quase tão mais difícil, e mais caro, que ir e voltar é algo poder acontecer…e a distância provoca infindáveis e incontroláveis tantas horas de solidão.

E, finalmente, quando em casa chegar, não tem ninguém a esperar para dizer algo, para fazer um carinho, para abraçar, certificar se cheguei, estarei como sempre sozinho, só eu comigo mesmo e a solidão.

Sendo assim, será que vale a pena?

Se é para tudo ficar como está, na maioria das vezes prefiro ne

m arriscar, nem tentar.



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