quinta-feira, 24 de junho de 2021

o tempo segue, prossegue, persegue...

O conceito de interseccionalidade, a ideia, a aplicação, nada mais é que o reconhecimento da multiplicidade dos diversos pela multiplicidade de diversos. Ninguém é só o que é, pelo contrário todos, nos mais diferentes cenários somos atores a desempenhar e podermos ser identificados, simultaneamente, por vários aspectos nos plurais papeis assimilados e assumidos. Todo ser é único e suas propriedades são dispostas ao crivo do outro, dos outros. O outro sempre será a régua, aquele que classifica, identifica, conhece, olha outra vez, respeita, reconhece e legitima, em conformidade as suas capacidades, necessidades e limitações em função das relações, afinidades e proximidades, intimidades, ligação.

O indivíduo, por conta da sua natureza diversa, mistura de sensações, saberes, sensibilidades, movido por ações, restrições e reações, por elementos que incitam e excitam racionalidades, objetificações, interesses, objetividade, subjetividade, suas junções e combinações, emoções, estímulos...até o próprio indivíduo, em função de ser muito difícil, talvez impossível, conseguir se conhecer completamente por vezes, atesta, alega, reconhece que não se reconhece em determinadas posturas.  

Mas, o ser humano é mobile, mutável, mutante, muda todo dia, muda todo instante, é influenciado, absorve, reage, por mais que tente reproduzir, apenas transforma e se transforma sempre em algo novo. Um segundo sempre será apenas e só um segundo, pode ser muito parecido, comparável, medido e pesado, com o mesmo material, mas é indelével e nunca será criteriosamente igual. O tempo, é o tempo, é só um e toda ação naquele tempo é única, pode até ser simulada, mas não se recupera. No maior esforço possível, diante dos recursos disponíveis, pode se reproduzir, o que já é diferente de produzir. Assim, tudo é único, nada se repete....

Se o tempo não para e ruma progressivamente para o próximo milésimo, centésimo, decimo, segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano, para o futuro, que será passado tão logo seja presente, não se pode pará-lo, muito menos faze-lo retroceder, toda ação vai, segue, prossegue e, por mais que repetida, será sempre outra. Volta-se a insistir, o ser humano tenta controlar o tempo, planejar, fazer previsões, prorrogar, estender, mas no máximo consegue criar rotinas, cujos movimentos continuarão sendo únicos e irrecuperáveis. Sempre será diferente em função da inevitável marcha do tempo. É impossível fazer rigorosamente igual ao que já foi feito, mesmo em formas, pois se condiciona ao sabor do tempo e o tempo não para, não volta atrás. Todo dia é diferente, por mais que se encontrem similaridades, as probabilidades de acontecer exatamente a mesma cena, com os mesmos atores, com o mesmo público, com os mesmos sentimentos e sensações é nula. Toda ação é inédita, pode até ser reconstituída, mas o simples fato de reconstituir já a faz diferente. Talvez por isso, o ser humano registra, cria instrumentos para guardar o tempo, para abastecer o estoque de experiencias, dedica os melhores lugares as que julga, por algum tempo, especiais, acumula lembranças, saudades, aprendizados, recorda ações, conteúdos necessários, jamais suficientes, para estudar, conhecer, reconhecer e desenvolver, aprimorar, processos. Sabe que o processo é continuo, progressivo e incontrolável.

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