segunda-feira, 2 de maio de 2022

 O que se pensa, imediatamente, ao ouvir: escravos fugitivos, fugidos???

Confesso, tal denominação, nomenclatura, divulgada, assimilada e, certo modo, naturalizada, incomoda por através dos vocábulos inconscientemente, quero acreditar, incorporar e acatar não só a expressão, mas a compreensão da semântica do explorador.

Penso, escravos eram pessoas, seres humanos, que tiveram a liberdade roubada. Pessoas, que presas eram vendidas, compradas, escravizadas por outras pessoas.

Seres humanos.

Penso, na realidade com a suposta fuga não fugiam, insurgiam, buscavam libertação, contestavam a condição humana imposta, de prisioneiro, escravizado e assumiam a de prisioneiros, culpados, criminosos, escravizados fugitivos?

Não sei se poderia escrever, descrever, de melhor forma. Utilizar uma denominação, expressão, nomenclatura mais justa, ajustada, mais precisa, menos equivocada. Até, por, como a querer totalidade, estar preso a construção, ao truque, a semântica do explorador, do escravizador, do "senhor".

As vezes penso no perigo do eufemismo. Parece tentar amenizar, suavizar, poupar, perdoar, com tom, entonação e denotação permissiva. Tal qual uma fuga para não comprometer e, principalmente, para não se comprometer.

Quando não se afirma, ipsis litteris, uma folga, um espaço, um perdão, uma falha, vão, fenda, vazio, se abre e junto a possibilidade de um "termo de ajuste" se concede.

Sei, parece ser perigoso afirmar, indicar, emitir uma opinião definitiva e definidora, por medo do erro.

E, assim, se comete outro erro, que pode dar origem a outro erro, a outro erro, a outros erros.

Talvez o "tudo indica", "segundo a documentação", registros, oralidade, pesquisa...pode não dar exatidão...

Para não comprometer, preservar, uma suposta integridade intelectual, apela-se ao relativismo, a uma pressuposta imparcialidade, a falta de incisão. Sem ser incisivo, seguro, direto, preciso, recrudesce uma espécie de leniência, ideias anacrônicas são permitidas, mantidas em circulação. Que, semânticas conservadas no âmbar, da covardia, permaneçam, se preservem, assumam o caráter de conservadoras…

Pelo medo do julgamento não julgamos, de certo, não é papel da história, mas a permissividade permite e, grosso modo, absolve.

Tudo isso se dá, quero acreditar, por conta  da imprecisão, da incerteza, da falta de recursos, de materialidade das provas, dos registros, da compreensão das fontes. Também, por conta da "euristica do medo", de uma hermenêutica esculpida como armadilha, ardilosa, de uma gramática, construída, constituida pelo explorador, escravizador, dominador, opressor e por ele, invisível, imposta.

Trocando em miúdos, nos encontramos em uma condição humana que escraviza, feita para escravizar, a não permitir fugas, isurgentes, insurgencia, a condenar quem dela não se deixa aprisionar, tentar escapar, buscar a libertação …

Penso, assim os prisioneiros, falsamente livres, assumem sem assimilar, consciente ou inconscientemente, a condição de covardes, de oprimidos, de prudentes, de acomodados ou de escravizados???

É curioso como acatamos, nos restringimos, nos agredimos, limitamos, aprisionamos, nos violentamos sob o propósito da aceitação. Acatamos o discuso, a gramática, a semântica da casta, classe, camarilha regida e que se rege pelos acordes e cabrestos capitais do capital.

O objetivo é não ser classificado como fugitivo, como marginal, como louco, como desinteligente apenas por não concordar, não se encaixar, não ser submetido e submisso.

Tá, fugitivos, mas de onde?

Das garras, da senzala, da chibata, da domesticação, da desumanização, da miséria física, mental, moral, da desvida...do acodamento, dos crimes de criminosos, dos algozes? isso é fuga ou ato de sobrevivência, insurgencia pela redenção?


Não, não eram fugitivos, fugidos, mas pessoas que se rebelavam, insurgiam, contra as violências, contra a submissão, contra atrocidades, contra a condição desumana a que eram sujeitados pela ignorância.

Não fugiam, não eram fugitivos, mas escapavam da degeneração, da degradação, da injustiça, mesmo assim eram procurados por continuarem, caçados, resgatados, por conta da visão esteita, objetos, coisas, propriedades…

Buscavam ser gente, pessoa, fazer o caminho inverso da reificação, deixar de ser objeto, coisa, mercadoria e ser o que é, o que são, ser humano.

Sempre me pergunto: posso acreditar em um Cristo de cabelo liso e olhos azuis?

Em um Deus, homem, macho, contrário de fêmea, ocidental, e teoricamente, pelo menos em 90% das "representações" branco?

Não sei se acredito em Deus, não tenho certeza, mas quanto mais olho, percebo, toco, observo, sinto e testemunho os movimentos, as manifestações, as energias e sinergias da natureza mais penso,se existir, existirem, são também e principalmente Deusas.

Responsáveis por gerar, parir e criar...alegrias e tristezas



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