Inda, ainda, é possível ser poeta num mundo sem poesia?
Em que a desconfiança amarga a amargura.
Onde o vício no medo de perder inibe a procura, o encontro, a ternura, o acontecer.
Quando um não sei entorpece a travessia.
Não sei, não sei se é possível ainda acreditar.
São muitas as dúvidas, apesar de não gostar e não acreditar em certezas.
Apesar de todos os apesares, o momento é de pouca ou nenhuma esperança.
A graça não consegue rir, e até a desgraça não faz mais chorar.
Acostuma-se com um não-ser que absorve o não-dizer e vive num não-lugar.
É óbvio que para o poeta tudo é possível, mas não é provável se ele não sente, não sofre, não consegue se alegrar, não fica feliz e só, só fica só, é indiferente.
O poeta para poetar, o ato de fazer essa porra de poesia, precisa viver um motivo.
Mas quando os motivos deixam de importar, quando o outro significa nada para um outro, quando a ideia de final da vida não causa dor, quando não se ama o amor, em que ele pode se inspirar?
Sabe quando a luz apaga no meio do dia e tanto faz que ela não esteja acesa?
Sabe quando falta luz, fica escuro e o sono é profundo?
Sabe quando se caminha, perdido e sem encontrar, para o fim do seu mundo?
Sabe quando o importante não passa por debaixo da porta?
Sabe quando ao abrir a janela se vê um muro?
Sabe quando tudo é nada e nada é tudo?
O desalento faz desfalecer, cansa morrer todo dia um pouco e se torce até para o dia definitivo chegar,.
É foda morrer a vida toda, viver e ver a vida todo dia te matar.
Diria tchau fosse pessimista, mas não sou, então adeus.
E para responder a pergunta que inicia, realmente precisa ter respostas para todas as perguntas e perguntas para todas as respostas?
Apesar de tudo, de todos, de todos os nadas, de todos os tudos, das perguntas sem respostas, das respostas sem perguntas, das faltas, das falas, da falta de falas, da desimportancia do que é importante, poeta que é poeta até no último dia, na fronteira da morte com a vida, que acontece todo dia, acho que sim, não tenho certeza, ainda vai achar, em meio a tantos perdidos, um motivo pra fazer poesia.
Mesmo que ninguém compreenda, mesmo que ninguém considere, o.
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