terça-feira, 31 de agosto de 2021

Certeza

Eu acho que não é bom quando a gente acha ter certeza.
Ter certeza encerra probabilidades, descolore sonhos, desencanta o esperado inesperado acontecer.
Quando a gente tem certeza não há mais imprevisíveis, o milagre, o encanto, a imprevisível previsibilidade de um vir a ser.
Ter certeza é fim da linha, e não permite ilimitadamente olhar, para frente andar, caminhar no destino do há, do pode haver.
A opção, quase sempre, é não mais seguir e muitas vezes nem para voltar dá.
O tempo da certeza é tempo parado, ou regressivo, controlado, um presente sem mudanças, sem futuro, só e feito de passado.
Passado que não passa, não passa e não vai passar, facilmente pode ser esquecido, mesmo acumulado, até não se poder  lembrar.
Certeza é já saber o que não sabia, mesmo sem ter o que não se tinha, mas não ser mais preciso precisar aprender.
São portas, janelas, pernas fechadas, ou abertas e escancaradas, sem desafio, sem brechas para espiar, observar e descobrir, é um partir que parte sem ir 
Sem opção, sem vitórias, derrotas, sem decepção, sem esperança, sem alma e sem surpresa.
Por tudo isso ou só por isso, com certeza, eu acho que não é nada bom quando a gente tem certeza que acha ter certeza.
Ter certeza é uma luz acesa, presa, sem poder iluminar. É tão óbvia, e o óbvio é tão óbvio.
É monocromática, furta a cor, é finita.
Como não tem a alegria vestida de fantasia, não inspira poesia.
É saber o que existe, sem saber o que poderia, a gente sabe o que é e é só.
É quando o conhecimento paradoxalmente cessa a oportunidade do conhecer.
Nela inexiste azar ou sorte, sul ou norte, com certeza a certeza parece menos amiga da vida e, muito, mais da morte.
Menos coisa da vida e mais da morte...


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