sexta-feira, 2 de julho de 2021

paradoxalmente igual por ser diferente

 Embora no Brasil a segregação não seja oficialmente reconhecida, assinalada, marcada como, por exemplo, nos EUA, ela existe como “não-dito”, implícita, perceptível nos lugares de pobres e nos de ricos. Ainda, sua nitidez reverbera no processo ancorado por ecos e bases estruturais.

Nos lugares de ricos, os pobres, que adentram, apenas servem aos ricos. Enquanto, nos lugares de pobres os ricos, que adentram, comumente pelos pobres são servidos e, ainda, se servem dos pobres. O mesmo acontece nos lugares comuns, públicos, neutros, que não carregam visíveis as marcas de distinção. Em poucos lugares, sob condições especiais e momentaneamente, não apenas pobres e ricos, mas os inúmeros marcados/identificados/estigmatizados/discriminados, recebem o mesmo trato, não são discriminados, pelo menos explicitamente, mas semelhantes, os iguais que são diferentes.

Ainda, é preciso pensar numa categoria pouco estudada e que sofre todo tipo de estranhamento, a da aparência física, do feio, do tapuia, aqueles que são considerados a margem de padrões estéticos, de incompreendida beleza. Assim, podemos deduzir a distância ser física, mas também simbólica. Está na falta de reconhecimento, na falta de vontade ou oportunidade de conhecer para depois reconhecer. Como disse Djamila Ribeiro, ao comentar uma discriminação, um preconceito, comumente o ator da ação procura encontrar desculpas, argumentos, para se defender quando descoberto, poucos reconhecem imediatamente sua falta, seu preconceito, se retrata e observa a oportunidade de preencher hiatos existenciais, comportamentais.

Ainda, no período que antecedeu a abolição, não raro, forros, libertos, ex-escravizados com mais posses/recursos adquiridos por esforço ou herança mantinham a prática, inscrita e normalizada, na mentalidade da época, de escravizar. Esses, por certo, incorporavam um princípio de distanciamento, do não reconhecimento e da ignorância que faz o outro semelhante, altero, comum e quase igual, ser discriminado por ser como todo mundo diferente.

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