JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade. Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. p. 31-66.
Hans Jonas, deixou a Alemanha com a ascensão do Nazismo, passando a viver nos E.U.A., construiu sua carreira em solo norte-americano, produzindo e escrevendo em inglês. Ele viveu a diáspora experimentada por alguns contemporâneos seus, como Hannah Aerendt.
Neste texto de 1979, o autor, então com 76 anos, sentiu necessidade de retornar ao idioma alemão, em sua reflexão sobre a ética na contemporaneidade, levantando questões sobre biologia e ecologia. Esta experiência de vida se revelou fundamental na produção. Em 1992 ele recebeu o título de Doutor Honoris causa pela Universidade de Berlim.
O trabalho visa destacar como a tecnologia da modernidade tornou o que se constituiria como futuro em algo factível. Ao levantar a questão do homem faber se sobrepondo ao Homo sapiens, Jonas aponta para a autonomizaçao da tecnologia, como se esta tivesse um fim em si mesma, se explicando e se auto-justificando. Ou seja, a tecnologia tornando o futuro possível como obra dela, de modo autônomo àquela que a concebeu – a ação humana.
Jonas reconhece que é difícil a construção de uma ética em uma época na qual a tecnologia parece não se coadunar mais as necessidades humanas, promovendo um ceticismo por parte dos homens. A idéia de um destino funesto deve ser visto como algo produzido pelo homem. O reconhecimento disto levaria a um questionamento sobre ética.
Porém, se o homem não se reconhece como agente da História, não haveria a necessidade de se pensar em ética. Ou seja, a História como algo maior que o homem, conduzindo-o sob seu peso, nos dando a idéia de que somente podemos sofrer a História, e não fazê-la. Para Jonas o fatalismo é o pecado mortal.
O autor, apesar das constatações que se configuram pessimistas, não deixa de ter otimismo e de se ver como alguém que acha que a ética é condição fundamental à vida. Ele crê que as atitudes humanas são determinantes na permanência da vida no futuro.
A experiência de vida de Hans Jonas foi fundamental na elaboração do presente texto. Sua geração viveu a efervescência cultural da República de Weimar, e, posteriormente, a experiência do exílio, por conta da ascensão do nacional-socialismo. Tal experiência produziu um desenraizamento, mas ao mesmo tempo fez esta geração pensar o mundo. Rompe-se consigo mesmo e problematiza-se o mundo.
Jonas, assim como Hannah Aerendt, viveu uma experiência histórica sobre o descolamento ocorrido entre tecnologia e ética. A indústria do Holocausto, a morte em massa produzida em série, por meios científicos e tecnológicos, como o uso de gases químicos. Após tal experiência, Jonas, Aerendt e outros procuraram pensar sobre como produzir uma ética para uma civilização que passou a acreditar tanto na tecnologia e na sua “amoralidade”.
A discussão sobre ética não é algo típico da modernidade. A Ética nasce com a Política e a História. Nascidas na polis grega por volta do século IV a.C., elas foram criadas para estabelecer uma ordem para um mundo que aparenta ser desordenado. A regulação da vida na cidade se dá não por regras naturais, mas por artifícios. Sem regras o “humano” estaria comprometido.
Tornar-se humano é estabelecer limites. Limites à natureza e ao outro (alteridade). Daí as cidades terem muralhas como a preservarem-se, a afastarem-se do mundo natural. A ética foi formulada por conta da relação entre os homens, e da do homem consigo mesmo.
A ética era antropocêntrica. O homem não se via como responsável pela natureza, dado ao seu ponto de vista diante dela. Diante da natureza o homem se via em sua pequenez. Atualmente a ética não pode mais ser antropocêntrica, por conta da enorme influência humana na natureza.
Quando a discussão sobre ética foi formulada naquele momento – Antiguidade grega – ela tem uma referência, um limite claro que é a idéia da finidade da vida humana. O homem moderno vê a morte como um castigo. Ele procura se colocar contra esta condição natural do existir, promovendo um prolongamento cada vez maior da expectativa de vida.
Os antigos gregos acreditavam que ousar ultrapassar os limites teria um preço. O homem contemporâneo busca, ao contrário, superar, extrapolar seus limites, não fazendo esta associação ousadia/punição,preço.
A finidade de uma geração é necessária à vida daquela que virá após ela. Tal concepção na sociedade tecnológica contemporânea configura-se como insuportável. No prolongamento cada vez maior da expectativa de vida promove-se, também, uma negação daquele que virá, ou seja, do outro. As várias formas contemporâneas desta negação (como a discussão do uso de embriões para fornecimento de células tronco e posterior descarte destes embriões) parecem minar qualquer discussão ética.
Além disso o homem moderno se vê envolvido por aspectos que ele constrói como cerceadores, como consumo, mercado, moda, etc.
Jonas propõe ações voluntárias para romper com tais “condicionadores”, e tais ações terão validade se promoverem a manutenção da vida, seja do próximo ou dos pósteros. Por isso o autor acredita que a política seja algo que deva ser praticado no presente, satisfazendo as necessidades dos que vivem no presente. Políticas voltadas somente para o futuro não se apresentariam como solução.
Porém a ética do autor não é presentista, no sentido que o momento presente tem na atualidade, ou seja, uma supervalorização do momento, do presente. Ela é uma ética do presente de modo a se promover a satisfação das necessidades de todos no presente, passando pelas ações que cada um possa desenvolver para tal. Manter-se a vida hoje e no futuro.
As sociedades atuais vivem um momento inusitado, no qual a tecnologia atingiu níveis nunca antes experimentados. O atual dinamismo tecnológico torna quase tudo obsoleto de forma rápida. Há um consumo cada vez maior do que há de mais moderno em tecnologia. O homem moderno deve desenvolver freios voluntários para a insaciabilidade contemporânea, que conduz a esta ausência de ética. Contudo, as experiências históricas não nos dão subsídios para saber como construir tal ética.
Tal situação, aparentemente inquietante, deve ser vista como momento positivo para a construção de projetos éticos. É o que Jonas define por heurística do medo. A arte de inventar através dos medos. Deve-se assumir todos os medos na problematização desses processos de construção ética, começando por reconhecer que a sociedade atual, seus medos e aspectos negativos são produtos da ação de cada um. É perceber que cada um tem responsabilidade na definição da situação atual, assim como no remediar de tal situação.
Princípio de Responsabilidade é um debate, uma resposta a obra de Ernest Bloch “Princípio da Esperança”, que pensa a ação humana sob uma perspectiva utópica na qual o presente é realizado no futuro. Tal perspectiva se revela, por exemplo, no Positivismo e no Marxismo. A ordenação (Positivismo) e a justiça social (Marxismo) realizariam plenamente o homem em um momento futuro.
No que o autor define por política da utopia ou utópica o futuro parece ser um dado quase concreto pelo qual as ações presentes possuem justificativa. Ela supõe um momento de realização possível, deslocando-o para o futuro. Ela combina o remorso pelas ações não realizadas do passado e a esperança em um futuro de realização. Porém, o futuro é incerto, ele não existe a priore.
Jonas vê o futuro como algo que guarda uma dimensão de incerteza, e não algo projetado ou inscrito no passado ou no presente. Percebe-se aí uma crítica à Filosofia da História. Essa concepção da modernidade sobre o futuro como sendo este um desdobramento do presente e do passado é criticada por Jonas. Contudo, criticando a dimensão utópica ele não critica ou invalida projetos para o futuro.
Ao falar de ética do futuro, Hans Jonas aponta três caminhos de como se pode pensar a ética: religião (realização na além vida futuro), associação entre futuro e política e um terceiro caminho que é a idéia de que os que vivem em um determinado tempo, vivam com a condição de prepararem um determinado futuro (política da utopia; sacrifícios feitos por uma geração para o bem das gerações futuras).
O autor sugere uma ligação entre a política utópica moderna e a laicização da ética religiosa. A laicização estabelece outra relação com o futuro. Este não repousa na recompensa celeste, mas em outra ordem que é definida pelo tempo dos homens e pelo desenvolvimento humano.
Estabelecem-se medidas de tempo que apontam para as ações humanas. O terceiro caminho citado acima articulará sua noção de ética a uma temporalização da História, concebendo-a como um processo. A História será uma medida para julgar as ações humanas como adequadas ou não. O tribunal da História julgará as ações humanas.
Constrói-se a partir deste momento a expectativa quanto ao trabalho do historiador na produção da verdade sobre o passado. Desse modo determina-se uma ligação entre a História e a Ética, e o historiador torna-se o indivíduo (abalizado por todo um conjunto de normas e trabalho baseado na pesquisa) que será consultado quanto à verdade e a proferir a verdade.